quinta-feira, 23 de março de 2017

QUEM QUER A VERDADE?


Um Traficante e um Aspirante se encontram


Traficante: Como vai essa vida rotineira? Entusiasmado?

Aspirante: Lá vem você com essa empáfia novamente. Do que se vangloria?

Traficante: Nada não. É que sabe, a vida é curta para fazermos coisas sem graça. O que faço é arriscado? Sim. É ilegal? Completamente. Imoral? Talvez sim, talvez não. Mas ao menos eu tenho emoção em minha vida.

Aspirante: É mesmo, pois sabia que entrei para os negócios! 

Traficante: O que? Você que é tão certinho, vai se arriscar agora a ser pego?

Aspirante: Sou honesto, sim, e não sou idiota.

Traficante: Está me chamando de parvo?

Aspirante: Em certa medida sim.

Traficante: Você está louco?

Aspirante: Não! Não me leve a mal! Mas você vende drogas não?

Traficante: Sim.

Aspirante: Elas fazem mal as pessoas que consomem, não? Principalmente se for consumido em excesso?

Traficante: Claro!

Aspirante: Elas não são permitidas por causa desses efeitos não é mesmo?

Traficante: Se é por causa disso, eu não sei, mas elas não são permitidas.

Aspirante: Essas drogas possuem mercado muito pelo poder viciante delas, não?

Traficante: Isso é óbvio!

Aspirante: Ora, por que não vender substâncias viciantes do ponto de vista químico, mas que sejam legalizadas?

Traficante: Como é que é?

Aspirante: Exatamente o que você ouviu. Por qual motivo ter todo um Estado Repressor contra você: Policiais, Juízes, Mídia, Defensores de valores morais, etc, etc. Se a ideia é atuar num mercado de venda de substâncias que levam  estímulos químicos ao cérebro para que seja criado um hábito de vício, por que não fazer isso de forma legal? Tem ainda um Bônus.

Traficante: Qual é?

Aspirantes: Se pode vender para crianças e você ainda é elogiado por isso!

Traficante: Nossa, ao menos os meus clientes são adultos.

Aspirantes: Pois é, clientes para a vida toda desde o berço hein?

Traficante: Mas afinal, o que você está fazendo?

Aspirante: Sou gerente de uma loja que vende comidas com alto teor de gordura e açúcar refinado especialmente para crianças.


Entra o Dono da Loja e um Burro Falante



Dono: Ei, o que você está fazendo aqui, daqui a pouco começa o seu turno. Não se esqueça do projeto dos brinquedos para as crianças.

Aspirante: Já vou, chefe. Estava falando com um amigo aqui que vende drogas.

Dono: Drogas? Quais tipos de drogas?

Traficante: Ah, aquelas nas quais os consumidores estão mais interessados.

Dono: Mas isso é um absurdo! Você não se envergonha de vender drogas que causam dependência química? 

Burro: Mas o Sr. Não vende produtos que de certa maneira causam dependência química?

Dono: Primeiramente, é diferente. Em segundo lugar, de onde você veio e como um Burro Pode falar?

Burro: Bom, eu também não sei porque eu falo, pergunte para o autor.

Dono: ?

Burro: Deixa para lá. Porém, no que seria diferente?

Dono: O quê?

Burro: O fato de você vender produtos que contém substâncias químicas que podem causar dependência.

Dono: Ah, antes de tudo porque não é contra a Lei. O Estado disse que essas substâncias são permitidas.

Burro: Ué, mas estou lembrando de você. Não foi você que fez uma vez um discurso sobre como o Estado é malévolo, e como estaríamos melhores sem a presença de um Estado e suas regulações?

Dono: Eu já fiz um discurso destes, aliás sempre faço.

Burro: Não é contraditório agora apoiar a diferenciação do que você faz em relação a um traficante de drogas ilegais única e exclusivamente na existência de uma regulação Estatal sobre o que é legal ou não? Regulação esta que você diz que nem deveria existir?

Dono: Não! É diferente!

Burro: Por qual motivo?

Dono: Eu gero empregos!

Traficante: Ué, mas eu estou empregado por causa do negócio do meu patrão.

Burro: Correto, mas não foi essa questão.

Dono: Não me interessa se essa não foi a questão. Eu gero empregos, e as pessoas procuram livremente os meus produtos.

Traficante: Ué, os consumidores também procuram livremente os meus produtos. Aliás, nem precisa fazer propaganda, eles voltam sem eu fazer absolutamente nada.

Dono: É mesmo? Poxa, meus gastos com propaganda são altíssimos. Boa parte das minhas margens são corroídas com o dinheiro que invisto em marketing, principalmente o indireto direcionado a crianças. Talvez eu possa aprender um pouco com o negócio de vocês…Ah, quer dizer, o que você disse é um absurdo! É lógico que elas voltam, você as vicia.

Burro: Mas os seus produtos não são viciantes também? Elas não ativam as mesmas áreas do cérebro que algumas drogas ilícitas?

Dono: Não vou comentar sobre isso. E o que você quer dizer com isso? Que um refrigerante é tão maléfico como cheirar cocaína?

Burro: Eu sou apenas um burro. O que um Burro sabe sobre as coisas? Porém, não foi essa a minha pergunta e nem quis dizer nada com a minha pergunta.

Dono: Veja, tudo bem. É verdade que o argumento de criar empregos não é o dos mais fortes. Várias atividades desprezíveis como prostituição infantil, tráfico de humanos, também criam.

Burro: Nisso concordamos.

Dono: Também é verdade, mas não espalhe, que vendemos produtos químicos que podem vir a causar dependência. É claro que colocamos instrumentos para entregar esses produtos de forma não tão direta. De certa forma é como o cigarro que nada mais é do que um instrumento para entregar nicotina É verdade também que as pessoas procuram livremente o vil traficante desse conto, logo não poderia argumentar, com racionalidade, que esse poderia ser o divisor entre a minha atividade e a dele.

Burro: Continuamos concordando.

Dono: Porém, eu conquisto o meu espaço pela minha inventividade. Não uso de violência, não uso de coação, como esses traficantes de drogas ilícitas. Além do mais, eu gero lucros para acionistas sérios que compram ações em bolsa de valores.

Burro: Porém, um traficante não tem que conquistar o seu espaço pela inventividade? Não precisa conquistar mercados consumidores assim como você faz?

Traficante: É, eu preciso fazer isso. Se eu me manter parado, a concorrência assume o meu espaço.

Dono: É, mas eu não uso de violência, não mato ninguém, não ameaço ninguém.

Traficante: Dr., e como eu faço para executar as dívidas de alguém que não pagou? Levo a protesto? E como faço para defender o meu território se um outro grupo quiser tomar o meu lugar? Aciono um advogado?

Dono: Bom, Não sei.

Burro: Se um concorrente entrar na sua loja, quebrar instrumentos e ameaça-lo de morte, o que você faria?

Dono: Eu vou ao Judiciário e à Imprensa. Em pouco tempo a reputação dele estará destruída. Seria até bom para os meus negócios.

Burro: Seria correto afirmar, então, que no seu negócio se a concorrência usar de violência pode vir a ser benéfico?

Dono: Sim, claro. É evidente que podemos usar de outras violências. Violências legalizadas, ou às vezes não. Mas deixa isso para lá.

Burro: Se um traficante invadir o seu território e fizer ameaças de morte, o que você pode fazer?

Traficante: Burro, a atividade é ilegal. O Estado não regula. Não tem essa história de Judiciário, ou Advogado e muito menos imprensa. É ele ou Eu. E cá entre nós, prefiro eu!

Burro: E quanto a acionista, Traficante? Tem?

Traficante: Ah, não é tão chique como o Dr.Aí, mas tem os donos sim, os lucros vão para eles. Por isso sempre estamos preocupados aqui com os custos e com a margem do negócio. Se o lucro cai, os "acionistas" vem para cima, fica ruim para a gente burro.

Dono: Eu gostaria de voltar ao ponto dos malefícios dos produtos que vendo. Não é verdade. Não é verdade mesmo. Eu vi um documentário, muito bom por sinal, chamado FatHead. Nele, um leigo em assuntos nutricionais diz que na verdade esse tipo de alimentação faz perder peso! Ou seja, faz bem para a saúde.

Burro: E desde quando perder peso está relacionado com saúde, e substâncias químicas que ativam certas áreas do cérebro? 

Dono: Ora, eu não sei. Mas o rapaz perdeu peso!

Burro: Traficante, em seus consumidores mais fiéis, você não nota uma perda de peso?

Traficante: Sim, alguns ficam muito magros.

Burro: Será por que elas ingerem menos caloria do que gastam com o seu metabolismo normal, muito provavelmente por estarem tão absortos na droga?

Traficante: Eu sei lá! Sei que ficam magros e a maioria emagrece.

Dono: Ok, ok! Eu sei que o emagrecimento tem a ver com a quantidade de calorias ingeridas e gastas, e não necessariamente com a qualidade dos alimentos. Também sei que o não-expert do documentário não ingeria refrigerantes, nem batatas fritas, também sei das centenas de estudos ligando uma série de doenças ao consumo de açúcares refinados, gorduras saturadas entre outros ingredientes que utilizamos. Estou ciente que crianças estão desenvolvendo doenças que eram tipicamente de adultos. Sei que há uma epidemia de obesidade. Sei que esse tipo de alimentação gera externalidades de todos os tipos que são arcadas por outras pessoas.

Aspirante: Externalidades chefe?

Burro: Deixa essa para um novo conto.

Dono: Sei que algo que vendemos como um frango, na verdade é um composto com mais de 30 produtos químicos. Eu sei disso tudo. Mas o que você, aliás não sei porque chamo um burro de você, quer que eu faça? Quer que eu vá à falência, e não gere empregos, lucros e dividendos?

Burro: Não, claro que não. Por que não começa dizendo a verdade?

Dono: E quem quer realmente a verdade?

Traficante: Quem quer a verdade?

Aspirante: Está louco Burro! Quem quer a verdade?


Burro: É…quem quer a verdade?

32 comentários:

  1. Verdade?
    Depende, de qual verdade estamos falando?
    Abraço.

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    1. É verdade, colega.
      Depende de qual verdade estamos ou queremos falar.
      Um abraço!

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  2. Que inconsistência!
    Agora você é contra o Estado?
    Um servidor público contra o Estado?

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    1. Eu?
      ou o Burro?
      ou o Dono?
      Quem exatamente, colega?
      Abs

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    2. Relaxa, o Soul não tem esse conflito de interesses. Ele ama o Estado. Afinal, quem garantiria uma renda mensal pra ele de um serviço não demandado livremente pela população mas que ele julga ser muito importante? Depois de se tornar milionário com o imposto pago pelos pobres - que ele diz tanto se preocupar superficialmente - você pode fazer exatamente como ele: fazer o que é melhor pra si e ter o discurso das "melhores intenções" para com a sociedade, pois, entediado pela IF e se sentindo culpado por não tê-la construído de forma útil à sociedade, saberá sabiamente o que é melhor pra ela.

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    3. Opa, a coisa ficou séria, agora fiquei realmente ofendido!
      Como assim, colega? Quem é você para falar assim comigo?

      Em primeiro lugar, nunca disse que o meu cargo é importante! Em segundo lugar, nunca disse me preocupar com os pobres, nem superficialmente. Em terceiro lugar, nunca tive nenhuma intenção para a sociedade. E por fim, e por fim, acho que o texto acima foi sobre serviços demandados "livremente" pelos indivíduos.

      Como pôde, como ousou dizer todos esses impropérios sobre mim? Como? Como? Como????????????????????

      Ah, Ah! Ufa, foi só apenas um espantalho argumentativo, combinado com muitos ad hominem e sem qualquer ideia objetiva ou concreta sobre qualquer texto. Ufa!

      Abs!

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    4. Soul, como tem gente que vem aqui pra tentar te ofender gratuitamente, hein?

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  3. Vi seu post e estou muito cansado para ler, mas com o título quis deixar uma coisa q ouço muito no mundo corporativo. " Existem 3 verdades, a sua, a do cliente e a verdade".

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    1. Marco, quando estiver mais descansando, e se assim quiser, leia o texto. É uma frase interessante.
      Um abs

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  4. A linha de argumentação falha quando desconsidera que o grau de dependência de uma droga ilícita não pode ser comparado a qualquer doce ou guloseima. Comparar doces ou alimentos gordurosos com crack ou heroína?! Percebi um posicionamento muito favorável do autor a descriminalização das drogas, tentativa de influenciar o público da peça, disfarçado de debate de ideias pelas personagens. Abraço!

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    1. Pq não percebeu um posicionamento favorável à criminalização de tudo?

      PS: Em alguns casos, açúcar causa tanta ou mais dependência do que algumas drogas "ilícitas". Qdo combinado com gordura então a comida vira uma bomba de calorias.

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    2. Olá, colegas!
      Bom que no mesmo texto vocês conseguiram ver argumentos para duas posições antagônicas.
      Um abraço!

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    3. Soul vc consegue ser extremista da esquerda e da direita. Garoto bom de texto, estudou em escola particular.

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    4. Caramba, consegui a façanha de ser de extrema esquerda e extrema direita ao mesmo tempo? Uau!

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  5. Colega, bom texto. Vc está mto blogador. Queria dizer que gordura (inclusive a saturada) faz bem pro corpo e seu consumo não deve ser evitado (ao contrário do q se diz normalmente). Mas falo da gordura naturalmente encontrada nos alimentos (as gorduras da carne, por exemplo).

    Acho q devíamos descriminalizar tudo. Assim acabamos com as civilizações como nós as conhecemos mais rápido (esse é o objetivo, não?).

    abs

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    1. Olá, colega. Claro que as gorduras devem ser consumidas, como as que encontramos no abacate, por exemplo. Não tenho conhecimento para dizer se as gorduras encontradas na carne são vitais, eu creio que não.
      Acabar com as civilizações como as que conhecemos? Acho uma impossibilidade alguém conseguir isso intencionalmente. Nunca poderemos saber o que de fato irá modificar profundamente nossas sociedades, se é que é iremos ver tais mudanças em nossos tempos de vida. Talvez, nós estejamos vendo essas mudanças, pois tudo está muito rápido, mas a maioria delas, se não todas foram não-intencionais. Quem criou a internet, inicialmente para fins militares, não iria imaginar que ela iria mudar hábitos de socializarmos, por exemplo.
      Criminalizar ou Descriminalizar? Eu vou mais para a linha de dizer a verdade.
      Abs!

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  6. Soul, acredito que o texto ficaria melhor se a comparação fosse com o álcool. Acredito que nenhum tipo de alimentação possa gerar o mesmo efeito que as drogas no que se refere a agressividade. Numa análise superficial, eu acho que somente isso faz sentido pra proibir alguns tipos de drogas, não? Mas entendi que o objetivo principal do texto não era discutir sobre a legalização das drogas...

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    1. Adrian, você precisa se informar melhor. Açúcar refinado e gorduras estão produzindo uma geração de crianças obesas, diabéticas etc. Há uma epidemia de obesidade causada por excesso de açúcar e gorduras.É o caso em que uns poucos lucram, mas a sociedade toda paga via tratamentos médicos.

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    2. Os pais não sabem dizer não aos filhos? Onde fica a responsabilidade individual? Por que as empresas têm de servir o que outras pessoas acham que é melhor pro meu filho? Realmente, não entendo nada, talvez eu seja o Burro.

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    3. Anônimo24 de março de 2017 09:47

      Eu entendi que o Adrian estava se referindo à violência. Crianças obesas dificilmente entrarão em brigas de território para ver que conseguirá mais açúcar. Elas não teriam energia nem tempo para isso já que estariam mais preocupadas em descansar e comer.

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    4. Adrian, rapaz não creio que sejam comparáveis mesmo, apenas se pensarmos nos efeitos químicos que ocasionam em determinadas áreas do cérebro.

      Anônimo2,
      As empresas servem o que os consumidores querem conscientemente ou não. E sim, os pais deveriam estar presentes, se possível, na educação, inclusive alimentar, dos seus filhos.

      Abs!

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  7. Judeu feliz em 195024 de março de 2017 11:12

    Judeu feliz em 194023 de março de 2017 12:12

    Cara, vc usa drogas?

    Não precisa responder sim ou não, pode usar uma parábola com vários parágrafos de textos ou imagens se assim desejar.

    PS: Escreva como dever de casa uma peça teatral sobre um país sul-americano fictício onde os serviçais do Estado fazem de tudo para prejudicar a existência dos cidadãos que os sustentam através de impostos.

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    1. A sugestão é boa, colega. E se ao invés de colocarmos um país na América do Sul, imagino se colocássemos numa outra galáxia, e fizéssemos como Guerra nas Estrelas "Numa Galáxia Muito Distante..."
      A ideia é interessante, pensarei nela.
      abs!

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  8. Rapaz

    Que texto bem escrito e criativo.

    Parabéns mais uma vez

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  9. Sempre que eu venho aqui me sinto provocado a te julgar.
    Tento soprar essa natureza pra longe, apenas pra apreciar a leitura melhor.
    Parabéns por nos fazer pensar.

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    1. Olá, Felipe.
      Fico contente que o texto possa ter sido um catalisador para alguma reflexão pessoal sua.
      Abs

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  10. Eu não consegui decidir ainda se o melhor é o texto ou a coletânea de comentários que alguns fizeram aqui. Difícil escolher entre reflexão construtiva ou diversão...

    Bom demais, Soul! Continua que tá bom demais! hahahahah

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    1. Olá, MRE.
      É verdade, uma escolha difícil:)
      Abs

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