segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

TAILÂNDIA - UMA VIRADA DE ANO FABULOSA NA "CIDADE DOS ANJOS"

  Olá, colegas! Antes de mais nada, desejo um bom ano novo para todos. Eu, sinceramente, não me impressiono tanto com esse tipo de data. O eterno ciclo de finais e começos é bem conhecido na filosofia oriental, e está presente em muitos conceitos para vários correntes místicas dessa parte do mundo. Nós, ocidentais, até pela nossa raiz cultural e religiosa, não refletimos tanto sobre isso. Porém, parece-me evidente que o final de ano, mesmo que seja um dia como qualquer outro,  encarna o ciclo de fim-começo-fim,  pois parece ser para muitas pessoas  a oportunidade de um novo recomeço, onde todas as esperanças e sonhos podem se renovar, deixando para trás no ano finalizado eventuais frustrações. É claro, como é apenas mais um dia e as pessoas continuam exatamente as mesmas (assim como o mundo), que a esmagadora maioria dos sonhos e esperanças não se concretizarão no ano novo vindouro, mas para isso sempre haverá mais um ano novo, onde ter-se-á mais uma oportunidade para agora sim realizar todos os projetos que alguém eventualmente possa acalentar.

  Apesar de não ser um dia especial para mim, assim como o natal também não o é, eu desde jovem sempre compreendi o que significava para a esmagadora maioria das pessoas. São momentos alegres, onde as pessoas gostam de confraternizar umas com as outras, e isso é algo muito positivo, saudável e bonito. Bom seria se todos os dias fossem ano novo ou natal, como o mundo e nossas sociedades não seriam? Uma mudança tão simples de comportamento traria mudanças tão profundas na forma em que vivemos que nenhuma teoria filosófica, econômica ou política conseguiria prever. Logo, essas datas, por esse estado de humor das pessoas, costumam ser interessantes para mim.

  O meu ano novo não poderia ser mais diferente . Foi na “Cidade dos Anjos”, também conhecida por nós ocidentais como Bangkok. Já tive a oportunidade de visitar essa cidade muitas vezes, até porque junto com Cingapura e Kuala Lumpur, é um dos maiores hubs dessa parte do mundo. Foco nesse artigo apenas na minha experiência de ano novo nessa fantástica cidade.

  Em outras ocasiões já passei a virada do ano em lugares muito inusitados. Como esquecer a vez que estava em Hanói, capital do Vietnã, e os vietnamitas me confundiram com um jogador de futebol europeu famoso. Os vietnamitas são fechados no começo, mas basta abrir um sorriso para eles que eles retribuem com um sorrido ainda maior. Logo, foi um ano novo tirando fotos com inúmeras pessoas que pediam e sorrindo para dezenas, quiçá centenas de pessoas. Ou o final de ano passado no deserto de Thar na fronteira entre Paquistão e Índia (umas das regiões mais tensas do mundo) na presença de um guia chamado Mr. Desert. Tenho um vídeo que é um dos mais legais que eu já fiz, quando o mesmo improvisou uma queima de fogos no meio do deserto. Dormirmos a virada do ano literalmente a céu aberto, no meio de dunas, sendo acordado de noite por um cachorro que vinha nos acompanhando por algumas horas, num dos maiores sustos que já tomei. Ou o final do ano num dos lugares com as praias mais lindas do mundo: El Nido na ilha de Palawan, Filipinas. Tinha feito três mergulhos no dia e meu ouvido estava doendo,  a cada explosão de fogo de artifício era um verdadeiro martírio para mim. Ou, mais recentemente, no deserto ao norte do Peru, em Lobitos, um lugar com altas ondas no meio do nada. Enfim, já passei viradas de ano muito interessantes.


  Entretanto, esta foi a mais diferente.  Primeiramente, o ano novo para os Tailandeses é em abril, pois o calendário deles não é o mesmo que o nosso. Eles estão no ano 2558, não em 2016, já que levam em conta a vida do Buda histórico, não de Cristo. Porém, como é comum em países Asiáticos, eles “adotaram" esse dia como um motivo a mais para comemorar e unir-se com familiares e parentes. As festividades do ano novo Tailandês duram três dias e envolve basicamente reunir-se com amigos, familiares e refletir sobre ações feitas no ano que se passou. Uma tradição interessante é que eles jogam água uns nos outros, no que vira uma grande festa, simbolizando uma forma de purificação.

  A “Cidade dos Anjos” geralmente nessa época recebe muitos turistas estrangeiros. A Tailândia é visitada por 20 milhões de turistas estrangeiros por ano, o que é algo notável, pois o Brasil recebe apenas uns 5 milhões, o que mostra como nosso país é mal explorado em muitos setores, sendo o turismo apenas mais um deles. Logo, a festa de final de ano na cidade tem importância turística também.

  Eu e a minha companheira começamos a nossa peregrinação noturna pela cidade no dia 31 de dezembro indo para o enclave chinês da cidade, a famosa Chinatown de Bangkok. Já estou muito habituado com esse tipo de lugar. Comidas baratas de rua, várias barraquinhas e muita, mais muita gente. Após comer ostras fritas com uma camada de ovo frito em cima e uma bela cerveja local gelada, começamos a andar em direção ao centro histórico da cidade.

  Quando estávamos passando por um dos templos mais sagrados da cidade, e do país, chamado Wat Pho, ouvi  cânticos típicos de monges budistas. Eu simplesmente adoro a entonação dessa espécie de canto. Posso fechar os olhos e ficar ouvindo por muito tempo. Resolvi entrar no templo e fui surpreendido com o que vi. Além do templo iluminado de noite ser muito bonito, havia centenas de pessoas sentadas de branco entoando cânticos. Todas estavam com fios amarrados no corpo que por sua vez estavam amarrados numa rede entrelaçada de vários fios acima de suas cabeças. 



Percebam que todos estão com fios enrolados a cabeça que por sua vez estão todos conectados em fios esticados no teto num emaranhado de fios que talvez represente que todos nós estamos de alguma maneira conectados. Que mensagem linda, principalmente com tantas pessoas com ódio no coração contra pessoas diferentes, seja por causa de ideias, posicionamentos políticos, orientações sexuais, etnias, ou qualquer outra diferenciação que se possa fazer entre indivíduos que no fundo são apenas e unicamente humanos.

Linda Cerimônia

Essa foto foi tirada uns dias antes, quando por acidente descobri que o Wat Pho ficava aberto de noite e era de graça para visitar. Não havia ninguém e foi uma sensação extraordinária andar nesse templo iluminado sem ninguém (de dia há literalmente milhares de pessoas)


  Foi muito bonito ficar um tempo lá apenas assistindo. Minha companheira, no que foi um belo insight, disse-me que talvez as pessoas enroladas nos fios significava que todos na verdade estavam entrelaçados uns aos outros, num conceito que é um dos mais bonitos que eu conheço: o de unicidade. Não sei dizer se ela está correta ou não, apesar de ser bem plausível, mas é uma belíssima explicação.


  Saímos do templo e passamos por milhares de Tailandeses. Em inúmeros locais, havia diversas pessoas sentadas e orando, misturadas com alguns estrangeiros sentados ao lado, numa mistura muito bacana de culturas, etnias e religiões (apesar de eu não considerar o Budismo uma religião).  Isso para mim foi lindo de se ver, principalmente com tanto ódio existente no mundo em geral e em nosso país em particular.

                                          Countdown Thailand...

  Resolvemos então ir para um grande gramado que existe em frente ao Palácio real. Quando chegamos ao local, eu simplesmente não acreditei no que vi. Havia dezenas de milhares de pessoas sentadas, orando, muitas delas com as duas mãos em frente ao coração, uma forma tipicamente Tailandesa de se mostrar respeito e cumprimentar outros. Junto com a saudação japonesa de se curvar o corpo (algo que acho demais e sempre faço quando me despeço de um japonês - outra coisa que aprendi com japoneses é não entregar um objeto com apenas uma mão, mas com as duas mãos), é uma das mais belas formas de interação humana não-verbal que conheço.  

Quando olhei essa multidão sentada, de branco, orando e muitos com a mãos perto do coração eu simplesmente não acreditei no que estava vendo.



  Coordenando essa multidão havia  dezenas de monges num palco montado entoando cânticos. Nossa, foi demais. Quando o ponteiro do relógio marcou meia-noite, eu abracei a minha companheira e desejei feliz ano novo. Percebi que fomos os únicos, muitos continuaram simplesmente na oração. Quando belos fogos sobre o palácio começaram, os monges continuaram entoando cânticos e a maioria da multidão permaneceu sentada acompanhando os monges na cantoria. Foi lindo. Ver fogos iluminando uma das mais belas construções da Ásia, dezenas de milhares de pessoas sentadas entoando cânticos acompanhadas por inúmeros monges, foi algo muito especial mesmo.

Dezenas de Monges no palco (talvez tivesse mais de cem) entoando cânticos. Eu não consigo compreender nada, mas eles são tão belos e trazem uma grande serenidade para mim.
Fogos no Palácio Real ao fundo. Uma grande noite e um grande momento, sem dúvidas. Uma excelente experiência.

   Ficamos por um tempo e resolvemos voltar para o hotel. A rua onde ficamos em Bangkok, gosto muito de ficar nesse local, é do lado da famosa Khao San Road, conhecida como o coração Backpacker de toda a Ásia. A primeira vez que vi a mistura de estrangeiros, insetos fritos, barulho, cheiros, locais oferecendo shows de mulheres, massagens sendo feitas na rua, etc, etc tudo ao mesmo tempo,  foi algo extraordinário. Hoje em dia, ela não me atrai mais tanto. Nunca tinha visto a Khao tão cheia. Apenas estrangeiros, quase todos jovens, bebendo cerveja, ou qualquer outra droga alcóolica (não era nem duas da manhã e vi inúmeras garotas passando mal), dançando eletrônico. Foi como ir de um oposto ao outro. Ficamos algum tempo, na verdade para atravessar a extensão de toda rua demoramos uns bons 30 minutos e fomos dormir, felizes com mais uma grande experiência vivida.


  É isso, colegas. Grande abraço a todos!

9 comentários:

  1. fotos bacanas ... completamente diferente das nossas festas... bacana mesmo!

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    1. Olá, Rodolfo!
      Foi bem bacana mesmo:) Abraço!

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  2. Infelizmente, alguns comentários foram perdidos antes de serem publicados. Peço sinceras desculpas as pessoas que deixaram o comentário. Além de ser um privilégio ter alguém lendo um texto meu, o simples fato de dedicar nem que seja alguns minutos, ou segundos, para de forma ativa deixar um comentário algo bacana. Logo, peço escusas.

    Pelo que eu lembro de cabeça, o UB me desejou feliz ano novo. O mesmo para você amigo!

    O Pobre Requenguela disse que gostava de alguns escritos meus e o resto da mensagem eu não lembro. Obrigado pelo comentário amigo, sinta-se à vontade para comentar mais vezes:)

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    1. Um colega anônimo aparentemente notou um excesso de otimismo, ou ingenuidade, no seguinte trecho do texto:
      "Bom seria se todos os dias fossem ano novo ou natal, como o mundo e nossas sociedades não seriam? Uma mudança tão simples de comportamento traria mudanças tão profundas na forma em que vivemos que nenhuma teoria filosófica, econômica ou política conseguiria prever." Como não lembro o inteiro teor da mensagem, mas ele aduzia à natureza humana.

      Colega, discutir o que é a natureza humana se é um estado de guerra permanente (Hobbes), se é um estado de ingenuidade e bondade (Rousseau) ou se somos apenas resultado de nossas experiências (a teoria da Tábula Rasa de Locke) é algo muito além do propósito desse texto. Além do mais, creio que um profundo entendimento sobre as mais recentes descobertas em neurociência essencial para corretamente entendermos e refletirmos sobre esse assunto.


      Mesmo partindo que a sua premissa seja correta, o que talvez não esteja convencido, o fato é que isso poderia um modelo, algo a se buscar continuamente, mesmo que nunca chegássemos lá. Assim, se não podemos retirar o ódio do ser humano, podemos atenuá-lo. Se não podemos amar todos os seres humanos como se fossem nossos filhos, podemos tentar nos integrar de uma maneira mais harmônica com indivíduos diferentes da gente sobre diversas perspectivas.
      Isso já é profundamente revolucionário e transformador, e foi essa a ideia passada no texto.

      No mais, grato pelo comentário.


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    2. Aos outros dois colegas que comentaram, que não lembro os nomes, só posso agradecer os comentários e mais uma vez pedir escusas pelo desaparecimento dos mesmos.


      Um grande abraço a todos!

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    3. Boas,

      Comentei mas não me lembro o que era.

      Mas essas suas viajem são realmente magnificas e inusitadas.

      Grandes histórias!!
      Adicionei seu blog lá na minha lista, gostaria de saber se poderia me add na sua :D

      Abraço

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    4. Valeu amigo, os comentários sobre as viagens são os que mais aprecio!
      Abraço!

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  3. Fantástico o relato, confesso que mesmo viajando muito world wide, tenho pecado em conhecer lugares notoriamente fantásticos como Vietnan, índia e alguns outros do leste asiático.

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    1. Olá, Carvalho!
      Grato pela mensagem. São lugares com suas dificuldades para viajar, alguns deles ao menos, mas algumas recompensas são realmente gratificantes.
      Abraço!

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