sexta-feira, 18 de maio de 2018

EU NÃO SOU MACHISTA! EU NÃO SOU MACHISTA. EU NÃO SOU MACHISTA?


Diálogo no Estrangeiro

Estrangeiro com 23-24 anos: "Você é do Brasil então? Ahh, as brasileiras são “hot” e fáceis, com grandes bundas né?"
Soulsurfer: olhar de paisagem….e pensando “minha mulher, mãe e irmãs são brasileiras”.

Mensagem no Whatsapp
Indivíduo A - vídeo enviado às 11:40
Indivíduo B - “Nossa que gostosinha essa mina do vídeo, deliciosa essa novinha de 17-18 anos”
Indivíduo C - "Nossa que delícia."

Dois dias depois
Indivíduo A - “minha princesa nasceu” - foto anexada de um bebê recém nascido
Individúo B - "Linda a sua princesa"
Indivíduo C -  “Parabéns pela princesinha”


Eu não sou machista, afinal fui criado numa família com três mulheres. Minha mãe sempre foi um exemplo de batalhadora, trabalhando com afinco enquanto criava os três filhos. Exemplo de mulher forte na minha criação. A imagem de uma mulher submissa, cuidando apenas de afazeres domésticos e vidrada em novelas da globo, sempre foi o avesso do que achava que uma mulher deveria ser, ou do que gostaria de uma mulher para um eventual relacionamento. 

    Claro, ouvia dos problemas de diferenças salariais, alguns documentários sobre os movimentos de emancipação feminina de algumas décadas atrás, mas isso para mim eram apenas ecos de algo que não me dizia respeito em absolutamente nada. Mulheres são tão dignas como homens, ponto final. Um homem virtuoso.

Eu não via nada demais num diálogo como o que se originou o texto, e eu tive vários assim, e se eu utilizasse whatsapp há alguns anos não veria qualquer contradição na cena transcrita. Aposto que uma parcela significativa dos homens não vê nenhuma contradição ou nem mesmo parou para refletir a respeito. Todos, na imensa maioria imagino, homens trabalhadores, bons pais ou maridos, e que muito dificilmente cometeriam alguma violência sexual contra alguma mulher.

Então numa viagem de surfe pela América Central encontrei minha atual companheira. Há quatro anos, descrevi essa viagem América Central - Na Terra dos Maias, Rebeldes, Surf e do Amor. Nossa primeira viagem juntos, nós morávamos em cidades diferentes no Brasil, foi para a Índia

   Viajando pela Índia de mochileiro, pegando trens populares de terceira classe, ficando em hospedagens simples, realmente vivenciando o que é esse gigante, incompreensível, bonito, feio, cheiroso, fétido, multicultural e inexplicável para os olhos de um ocidental destreinado e “virgem”, país.

Foi uma viagem gratificante por muitos motivos, mas uma viagem muito difícil por vários outros. No norte da Índia um frio inesperado fez com que a temperatura caísse algo em torno de 25-30 graus do que era as médias para o período. Não estávamos preparados para um frio desses. Nas estações de trem, centenas, milhares, de indianos sem roupas adequadas se espremiam seus corpos uns aos outros deitados no chão tentando sobreviver ao frio da noite (creio que alguns deles não conseguiram). Trens que demoravam 10-12 horas para chegar na estação. Viagens de trem que demoravam 20 horas ao invés de 8 horas. 

   Na cidade  sagrada de Varanasi, no meio de corpos sendo cremados no principal Ghat da cidade, de noite, sem nenhum vestígio de qualquer outro ocidental, pilhas de cabelo de um lado, um vendedor tentando que comprássemos alguma fritura, cantorias religiosas mais ao fundo, centenas de pessoas olhando para a gente, e cinzas no céu que me lembravam a célebre cena do melhor filme de todos os tempos, em minha opinião, quando uma chuva fina de cinzas humanas começa a cair na cidade de Cracóvia em 1944.  Foi um momento que até hoje eu não sei descrever corretamente de tão diferente que foi.

Foi uma viagem dura, bela, emocionante, triste. A Índia na minha visão, ao menos nessa viagem, foi como uma boa vida deve ser: intensa. Entretanto, teve algo muito ruim nessa viagem: o assédio que minha mulher sofreu.

A esmagadora maioria dos incidentes era apenas de curiosidade, mas muitos eram de pura malícia. Aquilo me irritou profundamente, e machucou muito minha mulher. Ela em certas partes teve que simplesmente cobrir o rosto, como se fosse um Nijab usado por mulheres na Arábia Saudita. Talvez para o horror dela, ela estava tendo em primeira mão a experiência de como é ser mulher em condições desfavoráveis, mesmo com um homem ao lado dela. Como ela agradecia o fato de ter nascido numa boa cidade do sul do país numa família de classe média numa época  e num país onde às mulheres lhe são reconhecidas, ao menos abstratamente, direitos idênticos aos homens.

Depois de andar por muitos países sozinha, e depois de muitos outros em minha companhia, provavelmente os dois países onde ela se sentiu mais segura enquanto mulher de assédio masculino foram o Irã e a China.  Esses anos todos viajando com ela e convivendo com essa mulher forte, me fizeram refletir sobre muitos dos meus comportamentos que eu tinha como normal, ou até mesmo natural.

Eu sei bem que artigos da comunidade financeira, ou de sites tidos com mais conservadores, adoram escrever sobre “feministas” ou “progressismo” ou uma mistura de ambos. Quase sempre qualquer movimento feminista, ou melhor dizendo qualquer inferência de que algo posso estar errado no tratamento das mulheres, é tido ou interpretado com desdém. “Vá arrumar a aparência primeiro, barangas” (risos arrancados de muitos comentários, talvez até mesmo aplausos), “isso é falta de Pinto” (mais risos), são respostas não incomuns. “Mas, o movimento feminista é ligado com o movimento gramsciniano que por sua vez quer a tomada do poder e a destruição dos valores ocidentais-cristãos”. Quantas vezes eu já li essa frase, que com todo o respeito parece-me mais um emaranhado de ideias confusas do que um pensamento claro sobre algo específico. Mas mesmo sem me ater em digressões abstratas, eu olho para a minha mulher. Ela não deve saber quem é Gramsci e com certeza ela não quer tomar poder nenhum. Mas mesmo assim, ela me diz que “eu não sei o que as mulheres sofrem”.

  Será que a maioria dos homens sabe? Será que a maioria dos homens brasileiros sabe, se preocupa, ou se importa? Eu realmente não sei, pois não posso falar pelos outros. Posso falar por mim mesmo. Eu tinha, e ainda tenho, certas condutas que com certeza não servem em nada para o engrandecimento das mulheres, e talvez possa contribuir para o que há de pior em relação a elas.  Creio que ao longo dos anos venho evoluindo nesse aspecto, espero que se eu for agraciado algum dia com uma filha, eu esteja mais preparado para realmente ser um Pai com “P” maiúsculo para uma menina.

Sem uma mulher forte que possa aguentar uma gravidez por vários meses e depois as dores do parto, não há humanidade. Sem mulheres fortes para cuidar de crianças recém-nascidas, dando amor, carinho, nutrição adequada, não há humanidade viável. Eu, sinceramente, não sei se é essa visão de mulheres que acalentamos quando a cada minuto um vídeo de mulheres contorcionistas é enviado para um grupo de mensagem em alguma mídia social. Eu também não posso estar tão seguro que a “princesinha” não possa virar uma daquelas jovens contorcionistas em algum outro dispositivo do futuro em alguns anos. Eu também não estou convencido de que essas atitudes feitas por “homens de bem”, trabalhadores, bons pais e maridos, de alguma maneira não possam contribuir para uma imagem negativa da mulher como um todo, com uma “coisificação” do sexo em relação à mulher e que isso não contribua de alguma maneira com a pandemia de violência contra as mulheres que existe em nosso país.

Em 2017, foram reportados aproximadamente 50 mil estupros. Há entidades que dizem que a notificação formal é de apenas 10% dos casos. Se isso for verdade, seriam 500 mil estupros por ano. Dezenas , talvez centenas, de milhares de mulheres todos os anos talvez possam estar sendo marcadas de uma maneira negativa de forma física, e principalmente psíquica , para o restos de suas vidas. Mulheres estas que foram, são e serão nossas mães, irmãs, filhas e companheiras.  Isso, assim como o grau absurdo de homicídio de jovens (principalmente negros) no Brasil, é uma tragédia de proporções gigantescas. A cada assassinato ou a cada estupro o Brasil fica pior enquanto sociedade.

Se sou machista? Afora a necessidade de se conceituar o que seja ou não “machismo”, eu creio que legitimamente não sou. Mas, é indubitável que eu sou fruto das influências externas que me moldaram consciente e inconscientemente ao longo desses 37 anos de vida. Logo, é certo que eu realizo atos que não sejam os melhores e mais condizentes com o que realmente acredito que deva ser o papel das mulheres numa sociedade equilibrada, ou, colocando em termos mais simples, talvez eu tenha atos e atitudes que simplesmente reproduzem preconceitos e violências veladas ou não contra as mulheres. Com certeza não é algo que eu quero, muito menos se eu tivesse uma filha para criar.

Cada homem deve refletir sobre suas condutas. A cada um cabe a reflexão. Se para o leitor do sexo masculino, a esmagadora maioria, sua conduta é a melhor possível em relação ao tema, ótimo, prossiga com sua vida assim. Porém, eu realmente acredito que esse campo possui muito espaço para nós homens realmente refletirmos sobre algumas condutas mais gerais que temos em relação às mulheres.

Um filme muito interessante. Uma sociedade com "papéis invertidos". O que é muito interessante são os pequenos detalhes, as pequenas coisas do dia a dia que entendemos como natural, e é de se perguntar  se são mesmo


Abraço a todos!








segunda-feira, 14 de maio de 2018

"JUROS COMPOSTOS FÍSICOS NEGATIVOS" OU VOCÊ TROCARIA DE LUGAR COM W. BUFFETT?


       Sim ou não? É uma pergunta simples com uma única resposta: sim ou não.  No meu último artigo, um leitor anônimo questionou sobre o fato de W.Buffett não se alimentar aparentemente de forma “correta” e mesmo assim possuir vitalidade aos 90 anos.  Aliás, quem já não recebeu alguma mensagem do tipo “este comeu de tudo, fumou e viveu até os 90 anos feliz, aquele outro, por seu turno, não fumou, não bebeu e morreu de câncer aos 60 anos”.  Mensagens como estas podem ser formas inconscientes de pessoas de alguma maneira referendar hábitos próprios não saudáveis.  Não tenho uma vida saudável, esta outra pessoa também não teve e morreu de velhice e feliz, logo vou continuar do mesmo jeito”.  É natural e intuitivo imaginar que muitas pessoas tentem ver a vida sobre essa perspectiva, para os mais iniciados em vieses cognitivos isso nada mais é do que o velho e conhecido viés de confirmação.

 Prezados leitores, se vocês gostam de finanças, se calculam retornos esperados, deveria ser claro alguns conceitos básicos de estatística. Se uma doença extremamente rara possui a probabilidade de acometer uma pessoa a cada um milhão de indivíduos, então podemos afirmar com certa dose de confiança que é muito improvável que João tenha essa doença, mas é extremamente provável que algumas dezenas de pessoas no Brasil possuam essa doença. Talvez algum João, já que é um nome comum, seja azarado e tenha uma doença tão rada, porém a probabilidade de um João em específico possuir a doença é extremamente baixa, quase negligenciável.  Trivial não é mesmo?

  Sendo assim, mesmo que certos estilos de vida sejam nocivos para uma vida longeva e com qualidade de vida, é possível que em nível populacional indivíduos com péssimos hábitos ainda assim tenham vidas razoavelmente boas, mesmo que se considerarmos que individualmente esses mesmos hábitos levariam a resultados muito ruins para a maioria das pessoas.  W.Buffett e suas diversas coca-cola por dia podem se encaixar nessa explicação, quem sabe. Pode até mesmo que não passe de uma jogada de marketing, e a dieta do grande investidor é controlada por inúmeros experts. Aliás, essa talvez seja a opção mais provável.

   Porém, por qual motivo estou falando tudo isso? A única razão pela qual cito o investidor americano é porque boa parte da audiência deste artigo de alguma maneira tenha o megainvestidor como uma inspiração. Qual não foi a minha surpresa ao ver uma palestra do incrível Peter Attia sobre longevidade com qualidade de vida. Para quem se interessa, e todos deveriam se interessar, é puro ouro. 

A versão de uma hora e quarenta e cinco minutos é mais interessante do que essa que encontrei no You Tube. Se não conhece Peter Attia, ele é um engenheiro que se transformou em médico oncologista que depois se transformou em pesquisador sobre longevidade humana. Ele é brilhante e como gostaria de poder marcar uma consulta de uma ou duas horas com ele apenas para tirar diversas dúvidas que possuo.

    O interessante foi quando ele no minuto 17 do vídeo diz que um paciente seu  é um grande amigo de W. Buffett e confidenciou que o grande investidor, em conversas particulares com amigos, não trata de outro assunto que não seja a sua saúde. Não é o mais novo investimento junto com a 3G? Não é o retorno financeiro das ações da Berkeshire? Aparentemente, não é isso o foco central da atenção do investidor nesse exato momento. Também pudera, se assim o fosse, não faria muito sentido. Uma coisa é o que pessoas públicas aparentam ao público. Para isso leia blogs, jornais, livros de auto-ajuda. Para saber o que se passa na cabeça de uma pessoa de quase 90 anos talvez seja mais indicado ler Dostoiévski ou Eu, Você e a Morte de Ivan Ilitch

   Um minuto depois, Peter Attia pergunta a uma platéia de jovens estudantes do MIT se algum deles trocaria de lugar com W.Buffett. Você trocaria a sua vida atual de estudante sem muito dinheiro com 22 anos para ser um multibilionário de 90 anos reverenciado por presidentes de países ? Ninguém levantou a mão. Peter Attia então complementa que muito provavelmente W.Buffett trocaria de lugar com qualquer um daqueles estudantes, ou talvez com qualquer jovem quebrado financeiramente de vinte e poucos anos.

  Você trocaria de lugar, prezado leitor? Eu com certeza não, em hipótese nenhuma.  Paremos e reflitamos sobre a proposta. Bilhões e bilhões de dólares, bens materiais luxuosos, respeito de pessoas poderosas, não é isso o "grande sonho" de tantos? Não é para isso que tantas pessoas se esforçam, perdem a infância dos seus filhos, e até mesmo a saúde? Mas, por qual motivo quase nenhum jovem estaria disposto a fazer essa troca?

 Não parece óbvio? O tempo é o o que você tem de mais precioso. Tempo de vida com qualidade, sem dor, com cognição preservada, como isso é precioso.  A lição não é nova nem mesmo aqui nesse blog, pois essa temática já foi abordada diversas vezes.

  Portanto, o objetivo primário de qualquer indivíduo deveria ser aumentar a sua qualidade de vida, se com aumento de longevidade ainda melhor.


Cortesia do Dr. Peter Attia



  O gráfico acima é incrível. Simples, mas elegante. No eixovertical há "qualidade de vida" e no eixo horizontal número de anos de vida.  Uma pessoa em média mantém a qualidade de vida até uns 40 anos e depois começa um lento declínio em suas capacidades físicas e mentais até que a partir dos 70 anos o declínio se acentua chegando eventualmente a morte aos 80 anos. 


  Os pequenos declínios, aquele lance de escada que não se sobe mais aos 45 anos, aquela dor aos 52 anos, se acumulam de tal maneira que o declínio de saúde começa a ser acentuado e rápido. Se pararmos para pensar, isso nada mais é do que o efeito composto negativo do tempo sobre o nosso corpo, ou "juros temporais físicos negativos" (minha ideia de nome). Assim como seu patrimônio depois de certos anos de acumulação entra numa curva exponencial de crescimento acelerado, o seu corpo entra em estado de deterioração exponencial acelerada a partir de certa idade.

 O objetivo seria então não apenas tornar a nossa vida mais longa, mas que ela tenha mais qualidade, e que o declínio acentuado aconteça num limite de tempo mais curto. Não seria bom viver até os 95 anos com qualidade física e mental, e morrer de um ataque cardíaco surfando (para quem gosta de surfe)?

 É triste  ver o estilo de vida de tantas pessoas gerando declínios físicos e mentais acentuados aos 45-50 anos. É certo que muitos, mesmo sentando horas e horas por dia, não conseguindo erguer um barra de 90 quilos num exercício como dead lift, comendo açúcar em excesso, com alto grau de estresse, dormindo pouco e mal, ainda preservarão suas habilidades físicas e motoras na quinta e sexta décadas de vida. Porém, muitos outros milhões, a grande maioria, com hábitos semelhantes se "arrastarão" até o final da vida, com dores, inúmeros remédios e sem poder fazer atividades físicas das mais simples. 

 É isso que se quer? Se não o é, se isso na verdade é uma grande tragédia, por que não se fala nisso de forma aberta e franca? Por que esse não é um tema muito mais importante do que qualquer outro, inclusive quem vai ser o novo presidente, ou se a bolsa brasileira vai subir esse ano?

 Quando li uma estatística que mais da metade dos americanos acima de 50 anos possuem duas ou mais doenças crônicas (diabetes, artrite, dores crônicas, câncer, etc), como é que a sociedade americana se atemoriza com ataques terroristas? De um lado dezenas de milhões de pessoas sofrendo e tendo vidas abaixo do seu potencial, em alguns casos bem abaixo, de outro uma média de 5-10 americanos mortos por ano em atos de terrorismo. Como é que algo estatisticamente insignificante (mortes por alergia a amendoim, por exemplo, tira a vida de centenas de americanos por ano, ou seja uma ordem de grandeza acima de atos terroristas) pode ter mais foco do que algo que afeta a maioria dos lares americanos? E isso não é apenas nos EUA, mas no Brasil também, apenas cito o exemplo da América do Norte porque lá há muito mais estatísticas disponíveis de fácil acesso. O que causa essa cegueira individual e coletiva? "O Sistema"? A nossa "pressa" moderna? A nossa falta de reflexão?  O "Engodo" de acreditar que caixão tem gaveta?

São essas reflexões fundamentais que aquele simples gráfico levanta. Se você trocaria de lugar com W.Buffett, tudo o que foi escrito aqui de certa maneira é irrelevante. Continue na sua jornada pela vida. Por outro lado, se a troca não te pareceu vantajosa, convido-o a refletir sobre o que está fazendo com o seu tempo e sua saúde.

Um abraço a todos






sexta-feira, 4 de maio de 2018

(IN)EFICIÊNCIA DO MERCADO DE LEILÕES DE IMÓVEIS E CARROS E MAIS UMA GRANDE COINCIDÊNCIA


                Olá a todos. No meu último artigo, falei de forma geral sobre um “causo” meu que ocorreu recentemente.  Eu não procurei ser técnico, nem fornecer tantos detalhes, mas para fazer o que eu fiz naquele dia em poucas horas apenas com informações colhidas na internet é necessária certa experiência. Naquele artigo outro colega blogueiro questionou sobre se não seria problemático do ponto de vista da ética comprar imóveis ocupados. Minha resposta, entre outras coisas, é que o protecionismo judicial, o casuísmo em certas decisões judiciais, criou um sistema confuso que prejudica o próprio devedor. O que vou escrever a seguir imagino ser um prato cheio para aqueles que adoram análises sobre “o que não se vê” quando voluntariamente se age para coibir uma determinada situação tida como negativa, criando efeitos adversos inesperados.

                Estou com um Fiat Ideia ano de 2007 e creio que preciso trocar de carro. Alguns leitores sugeriram alguns carros, e estou decidindo mais ou menos qual modelo e ano comprar. Mas, caramba, como carro mais novo no Brasil é caro. É um artigo de luxo. Apenas para quem está bem financeiramente, onde o carro não vai representar muita coisa, talvez nem 3-4% (no meu caso eu quero que represente de 0.5 a 0.75%) do patrimônio, deveria se dar o “luxo” de gastar dinheiro com isso. Pessoas fazerem dívidas para comprar carros de maior valor é um comportamento tão irracional como comer pão francês no café da manhã com margarina e suco de laranja e achar que isso é saudável para o corpo.

                Como tenho familiaridade com leilão de imóveis, sempre pensei em comprar um carro num leilão. Não é que nessa semana surge uma grande oportunidade, um leilão enorme da Ford com dezenas de carros novos. É muito difícil ver um leilão desse tamanho com automóveis tão novos.  Hoje, está rolando altas ondas, mas por causa de um ensaio com a banda que durou até meia noite, não acordei tão disposto e precisava passar os detalhes dos carros, lances. Ou seja, gastei a minha manhã com isso.  Imaginei que iria comprar algum carro com um bom preço, afinal com tantos  automóveis, alguma coisa iria sobrar. Ledo engano.

                O leilão ainda está ocorrendo, e até perdi a vontade de acompanhar.  Os carros estão saindo com preço de 15%, às vezes 10-12% a menos do que a Tabela Fipe. É preciso pagar um monte de taxas (despachante, transferência para outro estado, outra taxa de não sei o quê). Alguns carros vêm sem chave reserva, ou com algum probleminha, o que com certeza custa mais dinheiro. Caraca, isso é preço de mercado.  Ah, e ainda é preciso se deslocar para São Paulo e fazer um monte de trâmites burocráticos.

                Não vale a pena, até porque na hora da revenda irá aparecer que é carro de leilão, e o preço naturalmente cai de 10 a 15% em relação a FIPE.  Talvez profissionais, com estrutura de mecânico, logística, etc, possam conseguir extrair algo em torno de 4-5 mil reais de cada carro, o que representaria algo em torno de 7 a 8% do valor do  mesmo (ao menos nos carros desse leilão). Parando para pensar não é uma margem ruim se a pessoa sabe o que está fazendo, possui estrutura, e opera em volume  de dezenas de carros.  Com certeza não é para mim, meu tempo e disposição valem muito mais do que isso.

                Por que cito o leilão de carros? Num leilão de veículos retomados, o bem já está disponível na guarda de um terceiro, que quase sempre é o próprio leiloeiro.  O antigo devedor não está na posse do mesmo.  Ou seja, é comprar e levar o bem.  Muito provavelmente essa facilidade, comprar e levar, fez com que os preços com que se vendem os carros sejam muito próximos ao valor de mercado, pois há uma concorrência acirrada.  Isso é bom para todo mundo, pois se a garantia é recuperada com facilidade e vendida perto do valor de mercado, isso naturalmente faz com que a garantia seja menos arriscada para o credor, fazendo com que os juros sejam menores, bem como a oferta de crédito aumente.  É evidente que os juros e a oferta de crédito também são influenciados por outros fatores macro e microeconômicos, mas não tenham dúvida que a força da garantia tem um papel central nisso tudo.

                Já com leilão de imóveis “retomados” por não pagamento de empréstimo não ocorre nada disso. A esmagadora maioria é vendida como ocupado.  Isso, aliás, é o maior temor de quem não tem experiência. Essa é a última coisa que me preocupa, o que é uma vantagem, pois o fato de o imóvel estar ocupado assusta e afugenta um grande número de potenciais interessados, naturalmente depreciando o valor que o imóvel é vendido.  Além disso, especialmente leilões judiciais, podem ser extremamente complexos e tem mais pegadinha do que um especial de programas do Sergio Malandro.

                Fora isso, por causa de direitos sociais estabelecidos na constituição como o direito à moradia, ou preocupações com a família que está habitando o imóvel, o Judiciário, seja em leilão judicial ou extrajudicial, toma decisões que são difíceis de acreditar, criando uma enorme confusão no que foi elaborado para ser um sistema simples e lógico. O resultado é preços muitas vezes depreciados para a venda. Não há nem remotamente algo parecido com o que acabei de ver num leilão de carro.

                É verdade que carros custam menos e são mais fáceis de vender, assim é natural que haja mais concorrência. Porém, se qualquer espécie de leilão ocorresse com imóveis desocupados e com livre visitação ou se ao menos aquele que comprou o imóvel em leilão soubesse com certeza absoluta que poderia tomar posse do mesmo em poucos meses, sem ser surpreendido com eventuais decisões judiciais em sentido contrário, é quase certo que haveria um boom na procura por imóveis em leilão. Afinal, comprar um imóvel que vale R$ 400.000,00 por R$ 320.000,00 nessa situação pode ser um bom negócio . Na atual conjuntura, para mim seria um negócio fraco para razoável com potencial de se transformar num péssimo negócio.

                Logo, o voluntarismo judicial tentando “proteger” os devedores, a falta de transparência, a inexistência de um processo de venda do imóvel que seja mais claro e óbvio para o cidadão mediano, simplesmente faz com que a compra em leilão de imóveis ainda seja algo obscuro e cheio de armadilhas para a esmagadora maioria.

                Por mim, pode continuar assim por alguns anos, pois em ambientes de incerteza preços reduzidos podem ser encontrados. Encontram-se pechinchas na bolsa americana quando o VIX (uma medida de volatilidade que de certa forma pode ser associado como um marcador de incerteza) está alto nos 30-40 (ou melhor ainda altíssimo como 60), não quando estava absurdamente baixo meses atrás aos 10.  O mesmo raciocínio base serve para leilão de imóveis, ou qualquer outro investimento que visa ao ganho de capital.

                Quando a corretora abordada no artigo anterior me disse “você não vai querer comprar algo que sabe que há confusão, né?”, eu tenho certeza que 99% da população responderia “é verdade, claro que não, quero distância”.  Se fosse para comprar um carro, eu até responderia a mesma coisa, mas em relação a imóveis eu sempre brinco quanto mais confusão melhor, principalmente se é uma “confusão” que existe apenas na mente das pessoas que não dominam com profundidade o assunto. A minha resposta é algo do tipo “eu adoro confusão, principalmente se houver uma margem financeira enorme, pois margem financeira compra absolutamente qualquer solução”.

                Portanto, a confusão jurídica que os leilões de imóveis se encontram, beneficiam apenas poucas pessoas que possuem capital e conhecimento para navegar nesse universo. Por mais paradoxal que seja, quanto maior a preocupação em ajudar devedores inadimplentes principalmente por meio de decisões judiciais difíceis de se entender do ponto de vista do ordenamento jurídico e da lógica, pior fica a situação de quase todos.

                Falando no episódio do outro artigo. Recebi um e-mail da pessoa que comprou o imóvel no meu lapso de alguns minutos. É um leitor do blog, e já tínhamos conversado por e-mail antes. Inacreditável como o mundo pode ser pequeno. Para mim é apenas um indicativo que possuo um público pequeno, mas de leitores acima da média da população. 

                Essa pessoa escreveu que imaginava que eu poderia ficar triste pela perda da oportunidade, mas feliz por ter sido um leitor. Ele acertou em cheio na minha satisfação de ser um leitor, e eu não fico triste com ele não. A vida é assim, pessoas que se arriscam vencem. Ponto Final.  Eu acho que o mote da força aérea inglesa na segunda guerra mundial era algo como "quem se arrisca, vence".  Foi mais um aprendizado para mim, que mesmo situações onde acho que o leilão está sob controle, porque não vai ter concorrência, pode aparecer alguém de uma hora para outra. É assim em leilões, é assim na vida.  Não precisamos ir e estar despreparados, longe disso, mas por mais preparados e prontos que estivermos nunca o cenário será certo e garantido, não em quase nada que valha a pena seja do ponto de vista financeiro ou de experiências de vida. 

         Ontem completei mais uma venda de imóvel, deve ser a décima em 6-7 meses. A corretora que intermediou a venda mandou uma foto dos compradores e ela tomando uma champanhe.  Fiquei satisfeito, pois creio que compraram num bom preço, e vão ter uma boa vida no imóvel, além de garantir um retorno bem razoável de uns 40% em menos de 12 meses  para mim.  Segurança na compra e champanhe no final = sem complicações = preço que todo mundo paga.  Imóvel ocupado, riscos e sem champanhe no final = talvez um bom negócio.   Não dá para perder tempo e tentar eliminar todo e qualquer risco. "Quem arrisca, vence".

                Abraço a todos!

obs: e de carro, vou fazer o básico mesmo, e comprar algum semi-novo de 2015

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A LIGAÇÃO QUE ME "CUSTOU" 200 MIL REAIS


                Movido pelo fato de que, felizmente, o mercado imobiliário vem se aquecendo, ao menos em comparação com os inacreditáveis anos negativos de 2016 e o primeiro semestre de 2017, e pude encerrar diversas operações, iniciei novamente compra de novos imóveis. Pois bem.

                No mesmo leilão que arrematei um imóvel, observei que não foi dado lance num apartamento de uma capital de um estado da região norte-nordeste do país.  Não costumo me aventurar mais em lugares tão longes de onde moro. Quando não há lance, os lotes ficam de 24 a 48 horas como imóveis remanescentes, onde basta o oferecimento do lance mínimo para a compra dos mesmos.

                Resolvi, movido pela curiosidade, fazer uma análise mais criteriosa.  O preço do leilão estava incrivelmente convidativo. O apartamento era localizado num condomínio muito bom. Pensei então nos inúmeros imóveis que nem mesmo cheguei a entrar uma única vez em outros estados. Olhei preço de passagens e horários, observei que chegaria nessa capital quase no mesmo tempo em que preciso para chegar à cidade onde meus pais vivem, e pensei comigo mesmo que essa distância de milhares de km não era um impeditivo para um imóvel com tanta margem.

                Aprofundei-me mais na análise. Fazia tempo que não fazia uma averiguação tão detida. Por sorte o sistema eletrônico do Tribunal local era o da mesma empresa do Tribunal do Estado onde vivo, sendo assim em poucos segundos consegui me cadastrar como advogado para ter acesso a processos, que por seu turno estavam todos virtualizados.  Em uma hora e meia consigo, por meio da experiência da análise de centenas e centenas de casos similares, fazer toda uma reconstrução do que está acontecendo, da situação do devedor, do perfil psicológico, das fragilidades jurídicas do processo ajuizado contra o banco, entre outras coisas, o que me deixa satisfeito, pois gosto da sensação de montar um quebra cabeça em pouco tempo com informações fragmentadas de algo que está ocorrendo a milhares de quilômetros de onde moro.

                A parte jurídica está tranquila. Há variadas formas que posso usar para a obtenção de um acordo de desocupação voluntária. A informação que consta na matrícula do Registro de Imóveis está incrivelmente precisa, ao contrário de muitos outros cartórios pelo sul do Brasil. Convenço-me da compra. Anoto nas informações do que preciso fazer no outro dia (terminar declaração de IR, revisar a minuta de uma venda que fiz na semana passada, pagar algumas guias de ganho de capital e surfar), e crio um cronograma estratégico de ligações para fazer logo pela manhã antes de dar o lance.

                Consigo o whatsapp do advogado da parte que financiou o imóvel, tudo com informações tiradas na internet. Entro em contato, explico a situação, cito alguns dispositivos legais, algumas decisões do próprio tribunal local sobre alguns temas relacionados, e demonstro em algumas mensagens de whatsapp que a solução que faz mais sentido é um acordo de desocupação amigável. Vinte minutos, ele retorna a ligação, dizendo que a cliente deu ok. Pede apenas dois mil reais a mais, para um acordo de apenas 12 mil reais (eu estaria disposto a ir até uns 35-40 mil). Ótimo, já vou sair com um acordo em poucos dias depois da compra, talvez isso me resulte em uns 200-250 mil por poucas horas de trabalho. Vou precisar ir apenas uma vez para essa capital ver o imóvel, e já aproveito para conhecer mais o Estado. Excelente, fico feliz com a minha pesquisa, abordagem e forma de atuar em leilões.

                Ligo para um corretor da cidade apenas para confirmar a qualidade do empreendimento. Ele então me diz que o preço pelo qual eu venderia (apenas para testar os limites de uma venda mais rápida) seria uma verdadeira pechincha, e isso já me garantiria quase 200 mil. Talvez pudesse aumentar em uns 100 mil ainda mais o lucro da operação. Ótimo. Ligo para outra corretora. Ela não só conhece o empreendimento, como já morou no mesmo. Fala maravilhas. Excelente, achei uma corretora para vender. Antes de desligar, ela fala que vendeu três unidades nos últimos seis meses, e vai me dizendo os andares. Ela cita o andar do apartamento que está sendo leiloado.  Pergunto então qual é o tipo, pois há duas plantas de apartamento. Ela fala o tipo de planta que está indo a leilão.  Pergunto o final, e ela diz o número do apartamento que está sendo leiloado. Não acreditando, pergunto qual bloco, e ela diz o bloco do apartamento que está sendo leiloado. Pergunto quando foi essa venda, e ela me diz no mês passado. Inacreditável.

                Qual é a possibilidade e a coincidência de eu ligar para a corretora que intermediou a venda da devedora do banco para outra pessoa sem autorização da instituição financeira? Eu não vou entrar em detalhes técnicos, que serão esmiuçados a exaustão no livro, mas se tem algo tosco, usando o eufemismo num grau elevado, é fazer um contrato particular de compra e venda de um imóvel alienado fiduciariamente para um banco sem a anuência do credor fiduciário. Já passei por diversas situações assim, e não há possibilidade legal do “comprador” se opor ao eventual arrematante do imóvel. Em muitos casos, é uma má-fé enorme do devedor fiduciante que vende, e uma ingenuidade incrível de quem compra.

                Depois de conferirmos nome, matrícula, etc, a corretora me garante que o cliente dela fez um pagamento de uma parcela grande, e que a devedora iria se acertar com o banco, e que tinha feito acordo com a instituição financeira. O detalhe é que a venda tinha ocorrido quando já constava na matrícula a consolidação da propriedade no nome da instituição financeira. Isso não acontece. Grandes bancos usam procedimentos uniformes, mesmo que eles percam dinheiro, eles não fazem acordos depois da propriedade ser consolidada, só aceitam fazer acordos quando há determinações judiciais impedindo a venda do bem em leilão.  Como já comprei dezenas de imóveis com a instituição financeira em particular, eu conheço o telefone de inúmeros setores da sede central que tratam do assunto imóvel. Falo no setor de “alienação fiduciária vendas”, explico a situação, o funcionário me diz  o que eu já sei, pergunto se há algum acordo pendente sobre o imóvel e se há um erro nesse imóvel ser leiloado, o funcionário me diz que não existe nenhum acordo, tampouco erro.

                Ligo novamente para o advogado da devedora, ele, e parece ser sincero, não sabia de nada. Isso é normal, muitas vezes os clientes omitem informações de seus advogados. Reflito por 15 minutos. Vai ter uma complicação extra, mas nada demais. Mesmo que a devedora tenha “vendido” um imóvel para um terceiro, e este esteja ocupando o mesmo, por doze mil reais está saindo muito barato ter uma assinatura dela renunciando qualquer pretensão de questionamento do leilão, e como ela é a única, e não o  terceiro, de impor alguma resistência jurídica fundamentada, resolvo seguir em frente e entro no site do leiloeiro para apenas dar um clique, já que o lote vai ficar apenas até meio-dia e já são 9 e 45.

                Entro na tela, e cadê o apartamento? “Não acredito que alguém deu lance nesses 40 minutos que tirei para me certificar desse suposto acordo do banco, que já sabia ser furada, ainda mais num lote remanescente, isso nunca acontece”. Ligo no leiloeiro, e eles me confirmam que teve um lance há poucos minutos, e o imóvel foi vendido e retirado da lista dos imóveis oferecidos.

                Não acredito. Recebo um whatsapp de uma  outra negociação que eu tinha fechado por palavra no sábado no valor de 600 mil, inclusive com uma reunião  pessoal com um corretor e os compradores,  não estava mais certa, pois os compradores queriam mais dois dias para pensar. “Caraca”. Fazer o quê, não posso fazer muita coisa. Vou surfar. Pensei que não ia ter onda, mas aparentemente tem. Fico uma hora, está sol, tem altas valinhas, surfo bem, mandando várias manobras. Volto contente e quase já  esquecendo do ocorrido.

                Volto para casa e ainda de roupa de borracha molhando toda a sala recebo uma mensagem da corretora dizendo “que tristeza, você tinha razão". Sério? Não me diga. Imagino que o cliente dela deva ter dado uns 200-250 mil na bucha na negociação, como alguém faz isso sem tirar uma matrícula atualizada do imóvel e levar a documentação para um advogado conferir, ainda mais com a intermediação de uma imobiliária, é algo que foge da minha compreensão. Perdeu esse dinheiro, sinto muito. Ela então me pergunta alguma coisa, digo que uma consulta jurídica comigo nesse tema é no mínimo R$ 5.000,00 e não estou disposto a fazê-la. Afinal, se não fosse um bendito de um telefonema para essa corretora, eu não teria perdido a oportunidade de ganhar 200-250 mil talvez em questões de meses, e com pouquíssimas horas de trabalho associadas.

                É a vida. Numa semana um enxame de abelhas, numa outra  uma ligação que me “custa” 200 mil, ao menos tenho surfado com um tempo maravilhoso nos últimos cinco dias.

                Um abraço a todos.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

UM CISNE NEGRO NA FORMA DE ABELHAS


  Eram mais ou menos sete e quinze de uma manhã bonita e ensolarada na ilha da magia. Estou desperto e acabando o meu alongamento nas areias douradas da praia. Há meio metro de onda com séries maiores. O vento vem do quadrante oeste e está fraco, fazendo com que a consistência do mar seja muito boa. A ondulação é de leste, logo, depois de vários meses, sou obrigado a vestir um Long John, pois a temperatura da água está gelada. Quase ninguém na praia, a exceção de um ou outro surfista a centenas de metros de distância. É uma manhã típica, mas perfeita.

  Sinto então uma espécie de alfinetada no braço. Viro a minha face para o lado esquerdo e observo vários pontos negros. “Uma nuvem de mosquitos” penso instintivamente. Um ou dois segundos depois sinto várias picadas ardidas em minha pele, e me vejo cercado por um enxame de insetos de todos os lados. Tomo um susto grande, e vou sentido mais ferroadas, caio no chão e começo a me debater, consigo perceber que até onde a minha vista alcança eu vejo pontos negros voando, levanto-me e sinto inúmeras picadas nas costas. Corro então a direção do mar e me jogo na água. Não sinto mais nada.


    Fico então uns 10 segundos deitado com as costas na água gelada do mar, e um breve alívio na dor perpassa o meu corpo. Um surfista que viu a cena de longe vem em minha direção e pergunta se foram abelhas, pois ele tinha visto algumas voando na praia.  Eu não sei o que foi, sei que o meu corpo está doendo em várias partes. Se foi realmente abelha, e eu devo ter tomado dezenas de picadas, então  preciso ir imediatamente para um hospital.


    Dez minutos depois chego ao meu apartamento, peço ajuda para a minha mulher. Ela prontamente levanta da cama e me ajuda a tirar a roupa de borracha. Observo-me no espelho, e reparo que levei uma ferroada no beiço, está tão inchando que os meus lábios estão maiores do que os da Angelina Jolie. Vejo que tomei uma picada na mão, e o dedo está virando uma bola. Minha companheira então vê picadas na barriga, bíceps, braço, várias nas costas, nuca. Vamos direto para um pronto atendimento. No caminho de 25 minutos de carro, tudo começa a ficar ainda mais inchado, e apesar de não ser uma dor lancinante, sinto dor por todo o meu corpo.


    Sou atendido muito rápido. A minha pressão arterial está ok, assim como o meu oxigênio. Espero 10 minutos para ser atendido por uma médica, e algo incrível começa a acontecer, o meu corpo em aproximadamente uma hora depois do ataque começa a vencer a batalha contra os diversos agentes invasores, eu começo a desinchar de uma maneira incrível. Quais processos maravilhosos o meu sistema imunológico não estaria fazendo para que o meu corpo melhorasse o mais rápido possível?


    A médica me examina. Diz que eu dei muita sorte, se eu tivesse qualquer alergia a abelhas, poderia ter entrado em coma.  Ela diz que às vezes basta apenas uma picada, quando se leva inúmeras de uma vez só, para aqueles que possuem reações alérgicas, é problema sério na certa.  Sorte, pura sorte.  Afinal, eu não tive nenhum mérito por não ter alergia a abelhas, ou seja, lá o que me atacou. Não precisei estudar, e nem me esforçar.  Muito provavelmente é apenas um traço aleatório da genética dos meus pais, combinado com fatores ambientais quando eu estava no ventre da minha mãe e na pequena infância.  Se eu não tivesse sorte, minha vida poderia ter mudado na manhã de terça-feira.

    

    Sabemos que a vida pode ser imprevisível, ao menos do ponto de vista abstrato. Porém, quem são as pessoas, prezado leitor, que você conhece pessoalmente que realmente vivem a vida tendo essa ideia na mente? Uma relação familiar quebrada pode esperar ser fixada. Uma desavença com um amigo pode se acertar lá na frente. Um trabalho não satisfatório será remediado daqui uns anos com mais dinheiro no banco. A vida é imprevisível, certo, mas é tão fácil vivê-la como se ela fosse previsível, como se ela se ajustasse aos nossos desejos e preferências temporais.


    Se um enxame de abelhas às 7 e 15 da manhã numa praia cercada de dunas e com árvores a centenas de metros de distância não é um evento imprevisível, um verdadeiro cisne negro, eu realmente teria que reaprender o que um invento imprevisível realmente significa.


    Ainda bem que além de não ser alérgico, talvez o meu sistema imunológico esteja muito forte por ter reagido de maneira tão rápida a essa quantidade enorme de toxina de uma vez só.  Talvez seja a minha alimentação, meus exercícios, minha qualidade do sono, minhas relações com as pessoas mais próximas, talvez seja tudo isso, quem sabe a resposta correta para algo tão sutil e complexo. Dei sorte, e estou aqui bem, lúcido, e por que não dizer feliz, de poder escrever mais um texto nesse blog.  Sim, os eventos imprevisíveis negativos às vezes ocorrem em nossas vidas, e não há quase nada que possamos fazer para evitá-los.  Ainda bem que tive sorte, mas é um aviso, mais um, forte para que eu reflita sobre os rumos da minha vida e dos meus relacionamentos. Ainda bem também que estou num bom momento da vida.



    Um abraço a todos.


segunda-feira, 23 de abril de 2018

PERGUNTAS DOS LEITORES (MAIS UMA VEZ) A RESPEITO DO LIVRO DO SOUL SOBRE LEILÃO DE IMÓVEIS


          Olá, amigos.  Em outubro do ano passado, pedi aos leitores que me enviassem perguntas para ajudar na construção do livro sobre leilões de imóveis, e o resultado foi muito satisfatório. De lá para cá já escrevi algo em torno de 430 páginas, e devo precisar de mais umas 120 para terminar o livro. Vem sendo um projeto bem bacana, onde venho cada vez mais aprendendo a como produzir numa espécie de “deep work”. Tem me ajudado a ficar muito mais focado em inúmeras outras atividades para além da escrita do livro.

    No último mês, não escrevi nada devido a acontecimentos familiares e emocionais que fizeram me perder o foco da escrita. Porém, nos últimos dias reiniciei o processo.  Fico impressionado como é possível escrever bastante com um esforço pequeno, mas contínuo durante os dias.  Se alguém escreve apenas duas páginas por dia, em três meses são 180 folhas, o que é um material suficiente para um livro. A depender do tema, com um esforço moderado, posso escrever tranquilamente de 12-15 páginas por dia, principalmente se a pesquisa prévia já tiver sido feita e faltar apenas a redação do texto.  

      Assim, se eu precisasse escrever sobre minhas viagens ou temas do cotidiano,  creio ser possível escrever um livro em um mês. Isso é fantástico, como podemos ser produtivos se estivermos bem mental, física e espiritualmente e tivermos tempo.  Alguns temas são mais áridos e me tomaram várias semanas para que eu pudesse começar a escrever. O tópico de leilões judiciais, por exemplo. Pensei que iria escrever algo em torno de 50 folhas,  mas acabei escrevendo 150 folhas, e creio ter feito algo não só útil para interessados em leilão, mas bem como para profissionais do direito.  O inusitado é que depois das 150 folhas, a minha conclusão para o leitor é evitar leilões judiciais e dar preferência aos leilões extrajudiciais.  Foram precisos 150 páginas para dizer algo que poderia ser resumido em uma linha, mas para fazer com que um leigo em direito realmente compreenda essa linha, tive que dispor de uma quantidade imensa de material.

        Enfim, o processo vem sendo até agora prazeroso. Não sei se o livro vai atingir até mesmo vendas modestas, mas a sensação de estar produzindo intelectualmente algo próprio, mesmo tomando tempo e provavelmente sem qualquer retorno financeiro, é muito boa.

       Chegando ao ponto, o motivo desse breve texto é indagar mais uma vez aos leitores, eventuais dúvidas sobre leilão de imóveis. Como o livro também discorre sobre conceitos de finanças, conceitos de finanças comportamentais, conceitos de direito imobiliário, se leitores tiverem perguntas nessa área, talvez possa ajudar a dar os retoques finais nessas partes. Estou escrevendo agora um capítulo que se chama “Perguntas e Respostas”. A maioria das respostas já terá sido preenchida de modo mais técnico no decorrer do livro, mas achei interessante fazer esse capítulo nesse formato para ter algo mais direto e reto das principais dúvidas. Alguns leitores me enviaram diversas perguntas, sobre leilão, que eu transcrevo abaixo:

1 - Você compra os imóveis como pessoa física mesmo ou você constituiu uma empresa para fazer esse tipo de operação? A vantagem aqui seria ter um CNPJ para poder se valer de certos "benefícios fiscais" e não entrar na alíquota de 27,5% da pessoa física.

2 - Em imóveis ocupados, você geralmente entra em contato com o ocupante somente após ter sido declarado o vencedor do leilão? Pergunto isso, pois os casos de Venda Direta te abrem a possibilidade de sondar previamente a propensão do ocupante a aceitar um acordo de desocupação antes de dar andamento e efetivar a compra.

3 - Nesse contexto, sei que depende dos valores envolvidos, mas de um modo geral, você vê com bons olhos a Venda Direta ou via de regra a atratividade estaria apenas nos "leilões tradicionais"? –

4 - Não sou advogado e nunca precisei de um. Como encontrar e escolher um bom profissional que possa me assessorar e dar todo o suporte necessário nessa área?

5 - Aqui é mais uma curiosidade sobre a sua estratégia: caso não tenha lances até bem próximo do horário de término do prazo estabelecido, mesmo assim você vai lá e dá um lance no 1º leilão mesmo ou geralmente espera o 2º leilão para tentar um valor mais baixo (mesmo sabendo que a concorrência pode ser mais acirrada)?

6 - Qual a periodicidade que você monitora os leilões?

7 - Você já tomou prejuízo comprando algum imóvel em leilão?

8 – Quais os custos extras de se comprar um imóvel em leilão?

9 – O que pode dar errado? Pode-se perder o dinheiro?

10 -  Vale a pena comprar imóveis em leilão para morar?

11 – É difícil desocupar um imóvel ocupado? É mais difícil se houver uma família com filhos pequenos ocupando o imóvel?

12 – Qual é o menor preço que se pode pagar num imóvel indo a leilão, o que é preço vil?

13 -  Quem é responsável pelas dívidas de condomínio e IPTU de um imóvel indo a leilão?

           
      Essas são as perguntas que tenho por enquanto no capítulo. Se alguém tiver alguma dúvida que não esteja abrangida por essas questões acima em relação a leilões, ou se possui alguma dúvida sobre os outros temas aludidos no parágrafo anterior, pode deixar as perguntas na seção de comentários ou enviar e-mail para pensamentosfinanceiros@gmail.com. Tenha certeza que se for uma pergunta original, você ajudará na construção de um livro ainda mais completo.

   Finalmente,  mudando de assunto, comprei um domínio e pretendo fazer o novo blog. O que me atrai principalmente, tendo em vista os inúmeros podcasts estrangeiros que ouço diariamente, é tentar fazer algo parecido no Brasil. Imaginem,  prezados leitores, um podcast em português entrevistando pessoas sobre empreendedorismo, saúde, esportes, espiritualidade, e tantos outros temas? Um podcast a la “Tim Ferris”, ou “Joe Rogan Experience” ou “The Art of Manliness”, informação relevante, de qualidade, com perguntas bem-feitas, e sem cair para o vulgarismo ideológico extremado tão comum hoje em dia no Brasil.

        O “The Art of Manliness” é incrível. Numa semana entrevista-se um padre sobre a ética jesuítica, e como ela pode ajudar em sua vida. Na outra, um autor que escreveu um livro sobre ofensas, e como devemos lidar com as ofensas morais do dia a dia. Num outro dia, entrevista-se um treinador de força que fala que o permanecer sentado é o novo fumar. Numa outra semana, um autor de um livro que escreveu  sobre um hermitão que viveu isolado do mundo por mais de 20 anos numa floresta de um estado americano, e foi preso recentemente por invadir casas de veranistas (a entrevista é incrível, e a personalidade do hermitão também é algo muito diferente). É fantástico.  Não é aquela coisa cansativa de escrever ou falar sobre o mesmo tema com o mesmo viés ideológico "over and over and over again".  Eu, posso estar enganado, pelo meu conhecimento creio que inexiste algo parecido no Brasil. Acho que seria algo muito bacana, e eu ficaria extremamente feliz se pudesse participar de algo assim de forma mais ativa.

                Um grande abraço a todos!

segunda-feira, 9 de abril de 2018

O MUNDO REAL


O mundo real. Existe alguma outra realidade que não seja aquela que experimentamos? O que seria o mundo real? São perguntas de difícil resposta, se é que existe alguma que possa ser considerada definitiva. Nada impede que a nossa suposta realidade nada mais seja do que uma simples simulação, por exemplo. Porém, deixem-se divagações mais abstratas para outro momento, e concentremo-nos, prezados leitores, em divagações mais palpáveis com a nossa vida.

Você entra num bar, é verão e está quente, você está um “pouco acima do peso”, mas não acha estranho o fato de que de uma mesa duas garotas estonteantes olhem em sua direção de um jeito sensual. Feliz com a vida, você pede uma cerveja  a um garçom animadíssimo, a cerveja é barata, mas de alta qualidade. Você resolve então olhar ao redor do bar, e vê que o mesmo está lotado de pessoas jovens, bonitas, com corpos esbeltos e felizes. Você se sente bem, até que a realidade congela, assim como na clássica cena do filme “Vanila Sky” e um sujeito sinistro, mas afável, diz que aquilo não passa de uma peça de propaganda que irá tentar mexer com partes específicas do seu cérebro para que você continue tomando a cerveja de uma determinada marca.

Ao andar pelas ruas da cidade onde nasci na última semana (Santos), algo que gosto muito de fazer até porque a cidade é compacta e plana,  eu notei que nos bares a esmagadora maioria das pessoas está acima do peso, ou está obesa mesmo, os garçons não estão com cara de muitos amigos, e boa parte das pessoas está com o pescoço numa posição anatomicamente não ótima (o que com certeza pode ocasionar problemas ortopédicos no futuro) olhando a tela de um pequeno dispositivo. Uau, isso é quase o oposto do bar do parágrafo anterior.  Será porque a visão de um bar normal de uma cidade normal do Brasil, o que poderíamos chamar de mundo real, pode ser em alguns casos tão deprimente, é preciso criar-se uma realidade alternativa em produtos de marketing que de alguma maneira tentam vender um produto naturalmente associado com esse tipo de ambiente? 

Apesar de qualquer pessoa conseguir distinguir a ficção da realidade no caso dos bares, esse tipo de dissonância da realidade se apresenta de diversas formas.  Minha companheira, à espera de ser atendida numa consulta médica, me relatou de uma forma o tanto quanto indignada que teve que esperar bastante tempo, pois o consultório do médico tinha se transformando num vai e vem de homens bem vestidos e apessoados.  Sim, a famosa relação médicos-indústria farmacêutica em sua realidade mais básica. O que me chamou atenção não foi tanto a relação, que é evidente bastando ver o aumento do número de farmácias e o uso de remédios pelas pessoas, mas o fato dela ter destacado homens bem vestidos e apessoados.  Não eram pessoas mal vestidas, não eram pessoas com algum problema físico no rosto, eram homens jovens apessoados.

No que essa história de consultório se encaixa com o presente artigo e realidades alternativas?  Uma vez, num esforço talvez de melhorar como escritor, escrevi três artigos como se fossem  um roteiro de teatro.  Um deles foi sobre uma passagem do livro “A Revolta de Atlas” da escritora nascida na Rússia Any Rand.  O artigo em questão é este A Vergonha de Atlas, e relendo-o para escrever este texto achei, modéstia à parte, que  o resultado ficou razoável.  Porém, por qual motivo escrevi um texto sátira sobre esse livro tão caro a tantas pessoas, principalmente de matiz mais "libertária"? É porque sou um agente secreto do foro de São Paulo treinado por ex-agentes da KGB? A realidade é menos fantástica do que essa explicação.

Quem não conhece o livro, a história de mais de 1000 páginas é sobre uma sociedade onde as pessoas produtivas decidem dizer “chega, cansei do governo, dos tributos e da regulação” e param de produzir. Elas não só param, como desaparecem, deixando para trás os seus bens.  Como, antes de ler o livro, tinha lido diversos artigos num site chamado Mises Brasil, já estava familiarizado com a história ética-moral do livro, o que mais me interessou na leitura de tão extensa obra foi o aspecto literário e a construção dos personagens.

Eu no começo da leitura fiquei intrigado, pois achei que não podia ser verdade que um livro tão famoso e referenciado como obra-prima por tantas pessoas inteligentes, poderia ter uma construção literária tão infantilizada. Porém, na metade do segundo volume tinha ficado claro que era assim mesmo que a obra tinha sido estruturada.  

Na obra de Rand, todas as pessoas que de alguma maneira se encaixavam no arquétipo “improdutivos” eram ou tinham algum problema físico, ou sua vestimenta não era apropriada, ou exalavam um cheiro não agradável, ou não eram fisicamente esbeltos, ou eram extremamente inseguros, ou eram extremamente tolos e não conseguiam articular duas ideias de forma clara e racional. Em alguns personagens, todas essas características apareciam concomitantemente. Por outro lado, os personagens tidos no arquétipo “produtivos” eram ou bonitos (alguns tão bonitos que são descritos como Deuses Gregos, e é por isso que a capa do livro é um homem musculoso saído de um livro de anatomia segurando o mundo), ou inteligentes, ou bem vestidos, ou cheirosos, ou dignos, ou extremamente confiantes e seguros de si e do mundo.  Em alguns personagens, todas essas características apareciam reunidas.

Para além disso, há passagens simplesmente ridículas do ponto de vista literário. Dagny é a heroína da história.  O que é algo muito positivo ter uma mulher como heroína, o que não é de se estranhar já que a escritora é mulher.  Dagny até o começo do terceiro volume tem um romance com um empresário que é o estereótipo do que é bom na humanidade chamado Hank.  Algumas cenas de sexo são descritas, e a personagem central da obra parece um furor sexual, além de possuir um comportamento sexual completamente passivo em relação a Hank, em algumas partes assemelhando-se mais a “Cinquenta Tons de Cinza”.  Porém, o que chama atenção é que Dagny tem na faixa de uns 35 anos, e as suas únicas e esparsas relações sexuais se deram em sua juventude entre 18-20 anos com um único parceiro. Sim, há um hiato sexual na vida de Dagny de apenas 15 anos.  É difícil imaginar uma mulher que ficou 15 anos sem ter relações sexuais, e tendo apenas poucas experiências na juventude, de uma hora para outra tenha se tornando um furor sexual.  Está claro que se constrói uma personagem que seja um outro arquétipo na mente de alguns homens: “quase virgem”, mas de alguma maneira uma potência sexual.  Converse com qualquer mulher na vida real, e boa parte delas apenas riria de uma descrição sexual feminina como essa, pois ela seria apenas uma construção mental irreal, assim como o bar de cerveja da propaganda, não é real.

E essa digressão enorme me leva aos homens bem apessoados do consultório médico. Ou a Eduardo Cunha.  Ou à realidade.  Os homens que vão seduzir médicos não são mal vestidos e feios. Eduardo cunha não é mal vestido e é capaz de articular de forma clara e racional os mais variados argumentos.  A realidade não são homens feios fisicamente, intelectualmente limitados e inseguros de um lado versus homens bonitos, intelectualmente avantajados e completamente seguros de si de outro.  Se você vive no mesmo mundo que eu, se caminha pelas ruas das cidades como eu gosto de fazer, muito provavelmente a sua impressão, prezado leitor, como a minha é de que a realidade é muito mais complexa, confusa e difícil do que o mito quase religioso de bem x mal.

O mundo real é feito de pessoas, ficando em linguagem mítico-religiosa como a escritora Any Rand adota no livro citado, que se comportam em certas ocasiões como anjos e em outras como demônios.  O assaltante num momento é o pai de família preocupado com a saúde do seu filho num outro momento. Um empresário de sucesso num momento é o pai que abusou sexualmente de sua filha num outro.  Nem o assalto se torna justificável e menos condenável pelo fato da preocupação do assaltante com o seu filho, nem a possível produtividade do empresário deixa de existir pelo ato horrendo cometido contra a filha.  Multiplique esses exemplos por milhões, por outras variáveis, e percebemos quão complexa pode ser a realidade, e como idealizações de mundo são descrições limitadas da realidade quando muito, pois na maior parte das vezes são apenas visões completamente destituídas de qualquer  ligação com a realidade.

E por qual motivo isso possui alguma relevância? A razão é muito simples.  Uma mulher negra na década de 50, cansada depois de voltar ao trabalho, não quis ir para o lugar reservado a negros num ônibus de uma cidade do interior dos EUA, e resolveu ficar sentada em bancos reservados para brancos. Rosa Parks provavelmente não queria mudar o mundo naquele momento, ela apenas estava cansada de um dia de trabalho, e não achava correto que ela deveria ceder o seu espaço a um branco pelo simples fato dela ser negra.  Um ato de revolta simples se transformou no catalisador de um dos maiores movimentos contra o racismo nos EUA, e talvez no mundo inteiro.  Rosa Parks talvez não fosse a heroína que habita a fantasia de tantos homens, talvez ela não fosse brilhante intelectualmente, e nem mesmo um furor sexual depois de toda uma vida de acatamento sexual, mas com certeza o que ela fez foi extraordinário.

Precisamos sonhar muitas vezes, e às vezes o sonho não se coaduna com a realidade atual. Tentarmos conhecer a realidade, sem escapismos infantis e grosseiros, é a única forma para podermos tentar ter alguma influência sobre essa mesma realidade.  Seja alguém que irá construir uma das empresas atuais mais poderosas do mundo, como Steve Jobs, seja uma trabalhadora de loja de departamento que iria ajudar a construir um movimento que iria sacudir o país mais poderoso do mundo, seja um pai de família que se esforça para que o seu filho não se perca no caminho perigoso das drogas.

Eu, Soulsurfer (mas podem me chamar de Thiago também), há algum tempo consigo ver uma grandeza enorme em alguém como Rosa Parks, mas também numa mãe que com dificuldades se equilibra numa rotina desafiadora e mesmo assim consegue dar amor tão essencial para o desenvolvimento de uma criança.  Vejo o valor enorme num sujeito genial como Steve Jobs, mas um valor incrível também num médico que durante décadas tenta da melhor maneira possível cuidar de seus pacientes não apenas com remédios e tratamentos clínicos, mas com carinho e preocupação.

Sim, quando saímos da “mitologia” do marketing e de algumas descrições infantis do mundo, a realidade se torna mais complexa e muitas vezes difícil.  Mas quem disse que viver é fácil? Quem disse que o mundo não é um lugar cheio de conflitos sejam interpessoais, sejam os próprios demônios internos que alguém precisa lidar diariamente? A solução para uma vida melhor não é a fuga da realidade, mas sim a sua aceitação.

Um abraço a todos