terça-feira, 16 de janeiro de 2018

EU, VOCÊ E A MORTE DE IVAN ILITCH

“- Meus senhores, morreu Ivan Ilitch!
- Como assim?
- Aqui está. Pode ler – respondeu, e pôs nas mãos de Fiodor Vassilievitch o jornal que cheirava a tinta fresca.
(...)
Assim sendo, ao tomarem conhecimento da morte do colega, o que primeiramente ocorreu a cada um foi a possibilidade própria ou dos amigos nas promoções e transferência que ela iria provocar” (fls.19)


A morte. A não-existência. Como outros sentiriam a minha morte? Ficariam tristes? Seriam mesquinhos? Aliás, não sentir muita coisa e pensar em si, mesmo diante da morte de alguém, é mesquinho ou é simplesmente humano?


“Além das considerações sobre as prováveis promoções e transferências que a morte de Ivan Ilitch acarretaria, a própria morte de pessoa tão próxima deles despertou, como de costume, em cada um dos membros do Tribunal, a tranqüilizadora sensação de que escapara. ´Ora Bem!´ Ele morreu e estou vivo´ pensou e sentiu cada qual. Quanto aos amigos mais chegados de Ivan Ilitch, os chamados íntimos, unânime e involuntariamente consideravam os aborrecidos deveres a cumprir – acompanhar o enterro e fazer uma visita de pêsames à viúva” (fls.20)

Seria assim na minha própria morte? Será assim na morte da maioria das pessoas? Sempre me intrigou, e ainda intriga, que mesmo diante de sofrimentos atrozes de outros nós nos queixemos dos mais triviais aborrecimentos. Porém, será que não foi sempre assim? A empatia em relação ao sofrimento alheio, mesmo de conhecidos, é algo que nos torna mais humanos ou é apenas um código moral inatingível para boa parte da humanidade?

“A vida de Ivan Ilitch era das mais simples, das mais vulgares, e contudo,  das mais horríveis. Juiz do Tribunal falecia aos 45 anos.” (fls.28)

 Ivan Ilitch se forma em direito. Consegue então um cargo de grande importância junto a um governador provincial. A mocidade, e a alta posição social em tão tenra idade, permitem que ele se torne um bon vivant. Um Burguês, um Hustler dos tempos mais antigos. Alguém com maneiras decentes e elegantes, capaz de conviver nas mais altas camadas sociais com desenvoltura, relacionando-se com pessoas poderosas, aquelas relações as quais os entendidos modernos dizem que devemos cultivar para ter “um bom networking”,  e tirando proveito disso. A vida era boa para Ivan Ilitch

Teve, na província, uma ligação com uma dama local que se atirara no braço do jovem e elegante advogado e ainda um breve caso com uma modista; houve farras com oficiais da guarda pessoal do czar de passagem pela cidade, com idas, após a ceia, a certa rua afastada e de duvidosa reputação; havia uma certa bajulação ao chefe e à esposa do chefe, mas praticada de maneira tão elevada e distinta que não seria possível aplicar palavras desairosas. Tudo cabia no adágio francês: Il fault que jeunesse se passe. Tudo era feito com as mãos limpas, com camisas limpas, com frases francesas e, principalmente, no seio da melhor sociedade, por conseguinte com a plena aprovação das pessoas altamente colocadas.” (fls.30)

Depois de alguns anos, Ivan Ilitch se torna juiz. Ah, o poder. A sensação que se pode influenciar a vida de homens e mulheres se assim o desejar. A sensação de que se alcançou algo que a maioria dos homens não conseguiu. Ah, que sensação boa, a sensação de um vitorioso, de vitória, afinal a vida é feita de vitórias, e uma vida de sucesso só pode ser baseada em alguém que atingiu posições elevadas, um vitorioso, portanto.

Mas, agora, na qualidade de juiz de instrução, Ivan Ilitch sabia que todos, sem exceção, mesmo os mais poderosos e emproados, dependiam dele, e bastava que escrevesse umas poucas linhas num papel timbrado para que o personagem mais importante e mais auto-suficiente comparecesse à sua presença como acusado ou como testemunha e , se não quisesse, que ele se sentasse, ficaria de pé suportando a sua argüição. Jamais abusou de tal autoridade, muito pelo contrário, procurava atenuá-la, mas a consciência do poder e a possibilidade de abrandá-la constituíam para ele o principal interesse e a absorvente atração do seu novo encargo” (fls.31)

Ivan Ilitch então casa-se. Com moça de alta estirpe. Bonita, a mais bonita do círculo social que frequenta.  Porém, com o passar do tempo, a rotina familiar começa a pesar sobre sua vida. Uma esposa que não o compreende e o recrimina pelas mais insignificantes frivolidades. A vida familiar torna-se insuportável. É preciso achar um refúgio.

O seu objetivo consistia em se liberar cada vez mais das contrariedades domésticas  e dar a elas uma aparência inofensiva e decente; e consegui-o passando cada vez menos tempo com os seus, e quando era impraticável sair de casa, procurava resguardar a sua posição cercando-se de pessoas estranhas. O principal, porém, era manter a sua vida de funcionário. Todo o interesse da sua existência se concentrou no mundo judiciário e esse interesse o absorvia. A consciência da sua força que permitia aniquilar quem ele quisesse, a imponência da sua entrada no tribunal, a deferência que lhe tributavam os subalternos , seus êxitos com superiores e subordinados, e, sobretudo, a maestria com que conduzia  os processos criminais e da qual ele se orgulhava – tudo isto lhe dava prazer e lhe enchia os dias, a par de palestras com os colegas, os jantares e o uíste. Assim, a vida de Ivan Ilitch decorria de maneira que achava conveniente – agradável e digna” (fls.36)

Vários anos se passam, e agora Ivan Ilitch é juiz na capital.  Sua vida familiar deteriora-se, mas ele se aferra à respeitabilidade do seu cargo e da sua posição com mais força. Porém, uma dor surge em seu corpo. Meses se passam e a sensação é cada vez pior. Grandes médicos são consultados, mas nada de conclusivo dizem. A dor vai se tornando insuportável.  Então, Ivan Ilitch  questiona a sua mortalidade, numa das passagens mais primorosas da literatura mundial.

O exemplo de silogismo que aprendera no compêndio de Lógica de Kiesewetter – ´Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é Mortal` - sempre lhe parecera exato em relação a Caio, jamais em relação a ele. Que Caio, o homem abstrato, fosse mortal era perfeitamente certo; ele, porém, não era Caio, não era um homem abstrato, era um ser completa e absolutamente distinto de todos os demais. Ele fora o pequeno Vânia, com sua mamãe e papai, com Mítia e Volódia, com os brinquedos, o cocheiro, a ama e depos com Katienska e com todas as alegrias e entusiasmos da infância e da adolescência e da mocidade. Porventura conheceu Caio o cheiro da pequena bola de couro listrado de que Vânia tanto gostava? Por acaso Caio beijava a mão a mãe como Vânia? Era para Caio que a seda do vestido da mãe fazia aquele frufru? Fora Caio quem protestara na escola, por causa dos pastéis? Tinha Caio amado como Vânia? Seria Caio capaz de presidir, como ele, uma audiência?
´Caio é de fato mortal, e portanto, é justo que morra, mas quanto a mim, o pequeno Vânia, Ivan Ilitch, com todos os meus sentimentos e idéias, o caso é inteiramente outro. É impossível que eu tenha que morrer. Seria demasiado horrível” (fls.55)

Claro que os homens são mortais, mas a nossa própria mortalidade parece difícil de acreditar. Como é possível  que eu, presidente de uma multinacional, possa morrer? E os meus compromissos, e as minhas vitórias? Ou como eu, juiz de uma suprema corte, reverenciado por um séquito de subalternos posso ser mortal? Eu não!  Porém, a morte um dia chega seja você quem for, e Ivan Ilitch cada vez mais se dá conta disso. O seu sofrimento existencial começa a ser tão ou mais pesado do que o seu sofrimento físico. A impressão que ninguém se importa realmente com ele, amigos, familiares, é por demais dura.  As suas limitações físicas, ao seu olhar, se tornavam cada vez mais degradantes, nem mesmo suas necessidades fisiológicas mais simples ele era capaz de fazer.

“Mas foi exatamente graças a tão penosa circunstância que Ivan Ilitch experimentou um dado consolo. Quem sempre vinha limpar o vaso era o camareiro Guerássim. Tratava-se de um jovem mujique, asseado e saudável, que engordara um pouco com a comida da cidade, se mostrava sempre bem-humorado. No começo, Ivan Ilitch ficara constrangido com a presença daquele homem limpo, na sua branca roupa de camponês, desempenhando um serviço tão nojento.” (fls.58)
(...)
“Guerássim era o único que não mentia e tudo indicava que também era o único a compreender plenamente o que se passava e não considerava necessário ocultá-lo, singelamente condoía-se do patrão tão fraco e esquelético” (fls.61)

O único que via, sentia e tinha um sentimento de empatia era a pessoa responsável por limpar os dejetos de Ivan Ilitch.  Quão surpreendente não é isso? Ou não é surpreendente? O cuidar de outro ser humano.  O sentimento de cuidado. Não é isso que torna possível que empreendedores, pessoas de sucesso, existam em primeiro lugar? Quase sempre precisamos de alguém, quando somos frágeis, que nutra esse sentimento de cuidado e carinho em relação a nós.  A Mãe, o Pai, um Tio distante, um enfermeiro, um amigo, quão importante não podem ser? Quão essencial não é o cuidado em nossas vidas? Por qual motivo esse sentimento tão nobre é negligenciado, omitido e colocado em segundo plano tantas e tantas vezes?

“Depois, sossegou, deixou de chorar, prendeu a respiração, ficou atentamente ouvindo a voz que vinha silenciosamente, a voz de sua alma, a torrente de pensamentos que dentro dele se acumulara.
´O que é que tu queres?´ foi a primeira coisa que ouviu claramente.  ´O que é que tu queres?´ ´O que é que tu queres?´ repetiu. E respondeu: ´O que eu quero é viver. Viver sem sofrer´.
´Viver? Como?´ perguntou a voz anterior. ´Ora, viver como sempre vivi. Bem, agradavelmente´, respondeu. ´Como viveste antes, bem e agradavelmente?´, tornou a voz.
E ele começou a repassar na imaginação os melhores momentos de sua vida. Mas- coisa estranha! – tais momentos não lhe pareciam agora tão agradáveis como cuidava que fossem, salvo as primeiras recordações da infância.  Na meninice, sim, havia coisas verdadeiramente prazenteiras, que gostaria que se repetissem, se pudesse viver outra vez. Mas aquele menino estava morto, era como a reminiscência de uma outra pessoa.
Quando entrou a repassar o período que gerara o atual Ivan Ilitch, tudo que lhe parecera ser alegria se desmoronava antes os seus olhos, reduzindo-se a algo desprezível e vil. E quanto mais longe da infância e mais perto do presente, tanto mais as alegrias que vivera pareciam insignificantes e vazias. A começar pela faculdade de Direito. Nela conhecera alguns momentos realmente bons: o contentamento, a amizade , as esperanças. Nos últimos anos, porém, tais momentos já se tornaram raros. Depois, no tempo do seu primeiro emprego, junto ao governador, gozava alguns belos momentos: amara uma mulher. Em seguida, tudo se embrulhou e bem poucas eram as coisas boas. Para adiante, ainda menos. E, quanto mais avançava, mais escassas se faziam elas. Veio o casamento, um mero acidente, e com ele, a desilusão, o mau hábito da esposa, a sensualidade e a hipocrisia. E a monótona vida burocrática, as aperturas de dinheiro, e assim um ano, dois, dez, vinte, perfeitamente idênticos. E, à medida que a existência corria, tornava-se mais oca, mais tola. ´É como se eu tivesse descendo uma montanha, pensando que a galgava. Exatamente isto. Perante a opinião pública, eu subia, mas na verdade, afundava. E agora cheguei ao fim – a sepultura me espera´.
(...)
´Talvez eu não tenha vivido como deveria´, acudiu-lhe de súbito. ´Mas de que sorte, se eu sempre procedi como era preciso?´, e imediatamente afastou a única hipótese possível para o enigma da vida e morte” (fls.70-71)

Será possível? Mas eu fui atrás de uma boa posição social, do sucesso, afinal fui um vitorioso. Fui mesmo? Mas não é possível, como uma vida vivida de maneira decente, digna, com trabalho respeitoso pode ter sido uma forma errônea de se viver?

“Ponderou que aquilo que antes acreditava ser totalmente impossível, isto é, não ter vivido como deveria, podia ser verdade. Considerou que as pequeninas tentativas que fizera, tentativas quase imperceptíveis e que logo sufocava, para lutar contra o que era considerado acertado pelas pessoas mais altamente instaladas na sociedade, podiam representar o lado autêntico das coisas, sendo falso tudo mais. E que os seus deveres profissionais, sua vida regrada, a ordem familiar e todos os interesses mundanos e oficiais não passavam de grandes mentiras. Tentou defender tudo aquilo perante a si mesmo, e, de repente, atinou com a fragilidade da sua defesa. Não, não havia nada a defender.” (fls.75)

Será que é possível que o que se estima como verdade para uma boa vida não seja uma grande falsidade? Títulos, poder, dinheiro, conquistas, as cenouras que são colocadas na frente de nós coelhos-humanos, representam realmente uma vida prazerosa e de sentido ou será que não passam de ilusões? Há um meio termo possível ou não? 
Não sei. O que sei é que quanto mais o tempo passa, mais impressionado fico com algumas obras literárias, e o motivo delas serem verdadeiros clássicos. A primeira vez que li "A morte de Ivan Ilitch" tinha vinte e poucos anos. A segunda foi com trinta, e me causou uma impressão muito mais forte do que a primeira vez, já que eu vi muito de Ivan Ilitch em mim. Essa terceira vez, agora com 37 anos, foi significativamente mais perturbadora, mas de certa forma mais prazerosa, já que sinto que as reflexões que Ivan veio a fazer no leito da sua morte, quando em certa medida já era tarde demais, são questionamentos de extrema importância em minha vida ainda jovem e com saúde. 


“Aspirou profundamente, deteve-se no meio, inteiriçou-se e morreu.” (fls.77)

E assim termina uma das maiores obras da literatura russa.

obs: Citações retiradas do livro "As Obras-Primas de Leon Tolstói" da editora Ediouro, 2000.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

RETROSPECTIVA SOULSURFER DO ANO DE 2017. PLANOS PARA 2018

Olá, colegas. Mais um ano chegando ao fim, e tenho a honra e o prazer de dizer que o blog continua ativo. Creio ser importante analisar o que ocorreu em nossa vida e refletir sobre o que realmente se quer para o futuro.  A periodicidade desse exercício não precisa ser anual, mas não se pode negar que a virada de um ano em nosso calendário é um aspecto importante de nossa cultura. Sendo assim, apresento a retrospectiva do meu ano e alguns objetivos.

FINANÇAS
               

Esse foi um ano agitado do ponto de vista financeiro. Iniciei mais de 10 operações imobiliárias de leilão. O resultado não será tão espetacular como imaginava, mas não posso me queixar.  Foi um ano de um aprendizado ainda maior nessa área. Sinto-me como um verdadeiro expert. Como tenho operações em vários lugares do país, posso sentir na pele que o mercado imobiliário reage de diversas formas a depender da localidade. Porém, de forma geral, ainda não está fácil. Muita oferta, muitos imóveis novos ainda em estoque com construtoras, isso faz com que a balança da oferta pese mais do que a da demanda. 

Solução? Comprar barato e vender a um preço acessível e principalmente ser flexível em negociações. Quer oferecer financiamento, entrada à vista, um carro usado e um cavalo de corrida como forma de pagamento? Ótimo, irei analisar.  Em 2017, também entrei em uma operação grande, ao menos para os meus padrões, e estou confiante que irá fornecer bons frutos pelos próximos anos.  Ao menos, creio que estou garantido contra um downside muito forte, pois tenho garantias legais e o meu processo de Due Dilligence foi razoavelmente bem-feito.

Neste ano, comecei também o processo de diversificação do meu maior risco: Risco Brasil. Já tenho mais de U$ 35k lá fora, a conta na corretora Interactive Brokers já está funcionando, e consegui fazer a minha primeira transferência da conta do Banco do Brasil Américas para a corretora IB. Nesse aspecto, sou muito grato ao blogueiro Buscando o Primeiro Milhão que forneceu um tutorial muito bem-feito de como fazer essa transferência sem pagar nada e apenas segui o que ele escreveu e tudo funcionou bem. Aplausos a todos , blogueiros ou não, que disponibilizam o seu tempo para compartilhar estudos, tutoriais, reflexões, que podem vir a ajudar tantas pessoas em tantos aspectos.


O que pretendo com as minhas finanças para 2018 e além? Bom, eu quero liquidar meus imóveis.  Eu tinha 4,5X em imóveis depois das minhas compras. Em setembro estava com 3,8X e agora estou com 3,1X (o X é apenas uma variável para dar ideia da proporção), pois nos últimos dois meses consegui vender alguns imóveis. Eu encaro essas operações como se fosse um Patrimônio Líquido de uma empresa, só que no meu caso eu quero zerar esse Patrimônio Líquido, pois quero liquidez.  Espero diminuir esse valor para 1X até abril de 2019. Irei conseguir? Quem sabe. Imóveis pela sua iliquidez é uma espécie de ativo difícil de fazer prognósticos mais precisos. Num mês se pode vender cinco imóveis, e ficar 10 meses sem receber propostas em outros, porém estou trabalhando para que não fique com imóveis sem propostas. Ao voltar de uma manhã de surfe, resolvi pensar quantos imóveis tinha vendido nesse difícil ano. Fiquei surpreso que a resposta foi 9 imóveis (sendo que três delas aceitei pagamento parcial com outro imóvel). Se eu tiver o mesmo número de venda esse ano, nossa, ia ser muito bom e atingiria meu objetivo ainda mais rápido e de forma eficiente.


"E por que você quer liquidez, Soul?" Nos últimos meses, fiquei com algo em torno de 200-300k de liquidez imediata e achei horrível como isso limita o seu potencial de dizer sim a alguns bons negócios. Felizmente, já nesse final de ano a minha liquidez está começando a voltar a níveis muito mais satisfatórios. Eu creio que há muita calma no mercado para com 2018. Eu acho que o Brasil está piorando e muito. Para mim há uma enorme incerteza sobre muitas coisas, inclusive sobre a própria segurança da institucionalidade de nossas instituições mais importantes.  

Assim, pode ser que nada mais sério aconteça, que a inflação se mantenha comportada, que o déficit fiscal seja solucionado, que candidatos a presidente que mais parecem saídos de um circo dos horrores se transformem em presidenciáveis com um mínimo de postura, que a SELIC se mantenha comportada, assim como o câmbio.  Eu, sinceramente, não faço questão de fazer previsões.  Porém, tenho os meus receios, e se no Brasil é possível ter investimentos com liquidez imediata, sem pagamento de imposto de renda, sem risco de duration, e ainda pagando juros reais de 3 a 4%, parece-me uma decisão fácil. Não há grandes custos se as minhas preocupações se mostrarem equivocadas. Ficar líquido numa proporção muito grande de seu patrimônio é arriscado em lugares com taxa de juros reais negativas, não é esse o caso Brasil, e esse modelo mental cada vez fica mais forte em mim. Fique líquido ganhando juros reais de 3-4%, se aparecer oportunidades que demandem alta liquidez, se aproveite delas e seja agressivo quando houver boa margem de segurança. 

Pretendo também ir ganhando mais experiência com investimentos no exterior, e aumentando o meu patrimônio lá fora. Venho lendo bastante a respeito, uma área extremamente carente no Brasil, e creio que tenho um modelo mental forte para a minha exposição lá fora.  Espero que esse câmbio real continue um pouco desvalorizado, pois assim irei aumentar significativamente a minha posição.  Não cheguei nem a 3% da quantidade que pretendo ter lá fora nos próximos anos, então a caminhada está apenas no começo. Como o meu grande amigo Frugal fala, é uma sensação diferente saber que ao menos uma parcela, nem que seja ínfima, do seu patrimônio já não está sujeita a delações, corrupção, voluntarismo, salvadores messiânicos, planos econômicos mirabolantes, crises fiscais, etc, etc, do nosso país. Aliás, já poderia ficar uns 14 meses viajando com a minha companheira só com o que já mandei, e é uma sensação muito boa.

SAÚDE


Se há um assunto importante que é deixado de lado por quase todos é saúde.  E aqui esse “quase todos” eu me incluo. Falo dos diversos níveis para se ter uma vida saudável.  No ano que se passou, por meio da dedicação da minha companheira que vem se esforçando para aprender cada vez mais, minha rotina alimentar se modificou bastante. Eu pela primeira vez comecei a realmente me interessar sobre o que estava comendo, sobre a ligação de diversos alimentos com saúde ou doença e a forma correta de se alimentar.

Certo dia, estava lendo sobre correlação de fatores, e como construir um patrimônio internacional multifatorial. Especificamente, estava estudando alguns papers do Clif Asness  (quem já leu o livro "Mentes Brilhantes, Rombos Bilionários, talvez reconheça o nome), gestor de um dos maiores e conhecidos Hedge Funds do mundo - AQR 200 bilhões de dólares administrados - de como é bom ter momentum e valor de maneira integrada já que eles tendem a ser negativamente correlacionados.  Isso é um tipo de coisa para gestor profissional, é muito além do necessário para a esmagadora maioria dos investidores amadores, eu incluso. 

Ao ler os estudos, me  dei conta que sei sobre minúcias de finanças, o que é muito importante e essencial para se ter uma vida equilibrada (não é sobre isso os mais de 200 blogs amadores de finanças?), mas até alguns dias atrás eu não sabia que a vitamina D é na verdade um hormônio, e sua função vai muito além de apenas regular o processo de absorção de cálcio pelos nossos ossos. Caramba, isso é o básico do básico e eu percebi que sou completamente ignorante.  Em finanças pessoais, quando se dá os primeiros passos,  percebe-se o quanto a maioria das pessoas não faz a mínima noção de como lidar com dinheiro. Agora que estou procurando dar os primeiros passos em relação à saúde, é impressionante como a maioria das pessoas não faz noção nem mesmo do básico sobre alguns elementos de como ter uma vida saudável. E isso se estende também, e talvez principalmente, a pessoas ligadas a área de saúde.

Fiquei mais forte, perdi gordura, e até certa definição do abdômen, que não via desde os meus 21-22 anos, ocorreu.  E o melhor é que foi um processo bem tranqüilo, apenas de conscientização alimentar e de prestar atenção no que se faz na academia ou em exercícios funcionais.

Se o seu corpo está bem, sua mente funciona melhor. Se o seu corpo está forte e ágil, a sua qualidade de vida aumenta exponencialmente. Eu quero me dedicar muito mais a isso. Quero envelhecer com qualidade. Já comecei a ler diversos livros sobre o tema, escutar podcasts estrangeiros com treinadores de alto rendimento, e estou animado que no próximo ano irei melhorar ainda mais a qualidade da do meu corpo, bem como da minha vida.


TRABALHO E PRODUTIVIDADE


Bom, não é mais segredo a ninguém que pedi exoneração do meu cargo de Procurador Federal. Era muito provável que iria me exonerar no primeiro semestre de 2018, porém pela primeira vez na história foi aberto um Programa de Demissão Voluntário para Procuradores.  Eu, e um grande amigo de carreira (um dos únicos que tive na profissão e um cara de um caráter extraordinário, extremamente competente e inteligente) influenciado por mim, fomos os únicos no Brasil inteiro, ao menos da minha carreira, a aderir ao programa.  O Governo irá pagar uma indenização, como é comum em programas de PDV, que é suficiente para me sustentar durante uns 6-7 anos, então não tive nenhuma dúvida em aderir o programa.

Porém, o que fazer com o tempo livre? Nesse primeiro momento, decidi, entre outras coisas, me dedicar ao livro sobre leilões. Mais de 160 páginas já foram escritas, e estou ficando muito satisfeito com o resultado até agora. Quero escrever uma obra que seja um marco não apenas para investimento em leilões, mas para investimentos em geral.  Creio que a abordagem feita será interessante até mesmo para pessoas que não tenham interesse em comprar imóveis em leilão. Para os que têm interesse, eu creio que essa obra será de extrema valia, a caixa preta que é o tópico leilões, será esmiuçada em todos os detalhes teóricos e práticos possíveis. Ouso dizer que não há nada remotamente parecido no mercado.

Quero também aprender mais sobre investimento anjo, e venture capital de uma forma geral. Já localizei dois livros bons sobre o tema em Inglês, e devo ler no começo do ano. Há algumas semanas, também fui num evento de startups , e conversei com mais de 7 empresas. Foi uma experiência incrível. Iria ficar 3 horas no local, fiquei 11 horas. Ver tantas idéias interessantes, tantas pessoas comprometidas e com paixão por um empreendimento, com certeza foi um vento de ar fresco em mim. Gostei muito do ambiente. Se é possível fazer bons investimentos, e como fazer esses investimentos, é algo que pretendo aprender do ponto de vista teórico e prático talvez com pequenos investimentos.

A profissionalização do meu blog ficou para o ano que vem (grande Felipe, obrigado pela ajuda e peço desculpas por furar o cronograma de novembro, mas muitas coisas importantes ocorreram nesse período), é algo que quero fazer. Talvez produzir um programa de podcast baseado em entrevistadores feras como o Tim Ferris ou o cara do Art of Manliness. Tenho certeza que posso me esforçar e fazer boas entrevistas , assim como eles fazem, algo quase inexistente no Brasil, mas creio ser possível e factível. Entrevistas, onde o entrevistador não é o centro, onde as perguntas não são fáceis, e onde se possa extrair o máximo de entrevistados das mais variadas áreas do conhecimento.

Assim, estou animado com a possibilidade de fazer coisas novas e interessantes no próximo ano.


RELAÇÕES FAMILIARES


Este ano, depois de quase dois anos mochilando pelo mundo, consegui ver o meu pai diversas vezes. Estou me esforçando para visitar os meus pais na minha cidade natal uma vez a cada dois meses.  Na última vez que estive em Santos, dormi no apartamento do meu Pai por vários dias, algo que nunca fiz na minha vida. Foi muito bom poder fazer coisas simples como acompanhar o meu pai na Feira para comprar peixe fresco (pescada amarela, uma delícia) caminhar com ele de manhã pela vizinhança, poder conversar bastante. Deixou o meu coração mais leve, e creio que fiz o meu pai bem feliz. Estar feliz é poder caminhar com o seu pai de quase 80 anos pelas ruas de São Vicente às 8 da manhã e conversar sobre a vida ou comer um peixe preparado por ele. Sou muito grato de com 37 anos já ter percebido isso.

Com minha Mãe creio que a relação está boa também. Minha Mãe é muito diferente do meu Pai, e há muito mais similaridade intelectual com o meu Pai do que com a minha Mãe. Porém, minha Mãe é força, é a mulher batalhadora e vencedora, que com certeza serviu e serve de exemplo para mim, e me dá força.  Pude ficar nas últimas semanas alguns dias com ela, e isso me deixou muito feliz e contente.  Conversei até mesmo com minha irmã, depois de quase 20 anos sem quase nenhum diálogo,  muito conflito e afastamento. Não foi a conversa profunda e íntima que gostaria de ter tido, mas foi algo, e sou grato por isso.  Minha outra irmã resolveu se aventurar numa viagem sozinha, finalmente tomou coragem e partiu. Algo que me deixou bem satisfeito que talvez possa ser um primeiro passo para ela (re) descobrir a força que existe nela e procurar uma existência mais plena e saudável com ela mesma.

Com minha companheira venho aprendendo. Depois de quase oito anos juntos, é preciso tentar descobrir o que faz com que um relacionamento se mantenha bom. Tenho as minhas questões com que preciso lidar, ela tem as delas, mas é preciso fazer um esforço legítimo de auto-aperfeiçoamento para que um relacionamento possa continuar bom e quem sabe evoluir para algo melhor.

Para os próximos anos, pretendo aproveitar os meus pais enquanto eles estão nesse planeta terra, sabedor que eles possuem as suas limitações e manias, mas que são os meus pais e são as pessoas que me amaram e continuarão a me amar pelo resto da vida deles (que espero ser ainda longa).  Espero me tornar um companheiro melhor, e que eu possa ter relacionamentos cada vez mais saudáveis com as pessoas do meu entorno mais próximo.


É isso meus prezados leitores e colegas, finanças, saúde, produtividade e relações familiares, creio que andei bem nos principais setores da minha vida no ano de 2017, tentarei melhorar ainda mais no ano que está por vir.  Desejo a todos boas reflexões sobre os aspectos importantes de suas vidas, que possam corrigir o que pode ser melhorado, aperfeiçoar ainda mais aquilo que está bom, e sentirem que suas vidas possuem um propósito, algo que dê significado.


Grande abraço!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

UM LÍDER VERMELHO - PORQUE VOCÊ DEVERIA SER UM



            Olá, colegas. Esse modesto blog possui algumas ideias centrais, uma das principais é o conceito de se desafiar intelectualmente sempre que possível. Não é à toa que esse espaço às vezes atraia críticas ferozes,  pois desafiar conceitos arraigados não é fácil, mas é essencial. Diversos artigos nesse sentido já foram produzidos, e ficaria difícil citar todos eles.

            Há uma estratégia que recentemente ouvi num podcast do Tim Ferris: red team ou time vermelho. Primeiramente, o vermelho vem da alusão a União Soviética nos tempos de guerra fria. O que um “time vermelho” deve fazer? Basicamente, tentar de qualquer maneira provar que há falhas em algum sistema, forma de pensar, etc. Se uma organização possui um sistema de segurança na internet, um red team pode ser formado dentro da própria organização para demonstrar justamente o contrário. 

            Bom, isso para mim é basicamente o melhor, mais inteligente, e científico processo para evoluir qualquer coisa: ideias, produtos, pensamentos, relacionamentos, etc. Isso é a completa antítese do que ocorre em mídias sociais hoje em dia, ou em comentários como “Nossa, que texto bom, disse exatamente o que penso”. Essa forma de raciocinar é tão não-intuitiva que não é nenhuma surpresa dela ser aplicada apenas em organizações de ponta pelo mundo, e não pela população em geral.

            Sem saber sobre o conceito de “time vermelho”, percebi que sempre tive a tendência, aumentada nos últimos anos, de ter a forma de raciocínio condicionada à forma de agir de um red team. Quero me exonerar do cargo de Procurador? Exercícios e mais exercícios mentais a la red team, para de alguma maneira procurar falhas, inconsistências, riscos, em todas as premissas que me inclinavam a deixar o cargo. Por isso sempre tenho um sorriso interno, quando alguém me pergunta se refleti a respeito da decisão que tomei. É claro que sempre dou a resposta padrão.

         Vou comprar um imóvel em leilão? Exercícios mentais sobre o que pode dar errado. Não estou preocupado sobre o que pode dar certo, se resolvi comprar um imóvel em leilão é porque já vislumbrei tal cenário, é muito mais importante saber o que pode dar errado para que efetivamente possa decidir se vale ou não a pena.

            Ao aplicar tal forma de pensar , é natural que o processo decisório e as decisões derivadas dele se tornem muito mais robustas e eficientes. Se isso é imprescindível para o indivíduo, imagine para o setor de inteligência militar de um país importante? Numa simples pesquisa na Wikipédia em Inglês sobre Red Team, vi que o Exército Americano possui uma Universidade em Assuntos Internacionais militares e culturais. Um dos cursos que essa Instituição ensina é sobre como ser um líder de um Time Vermelho. Dá para imaginar quão bom uma pessoa não deve ser para ser líder de um time vermelho no exército dos Estados Unidos.

            Vou copiar e traduzir alguns itens do texto da Wikipedia - lembrando que não sou tradutor e posso ter comedido algum(ns) erro(s):


"The UFMCS Red Team Leader’s Course (RTLC) is a graduate-level education of 732 academic hours (18 weeks). The course scope includes the four UFMCS pillars: Introspection and Self-Reflection; Groupthink Mitigation (GTM); Fostering Cultural Empathy, and Applied Critical Thinking (ACT)."

O curso de líder do time vermelho da Universidade de Assuntos Militares e Culturais Internacionais é uma graducação de 732 horas (18 semanas). O objetivo do curso inclui os quatro pilares da UFMCS: Introspecção e Auto-Reflexão; Mitigação de Pensamento de Grupo;  Promovendo Empatia Cultural e Pensamento Crítico Aplicado.

"Introspection and self-reflection includes: Personality Dimensions, Introspective Life-Changing Event presentation and daily journaling."

Introspecção e reflexão pessoa inclui: Dimensões da Personalidade, Apresentação de eventos introspectivos de mudanças de vida e journaling diário.

"Groupthink mitigation (GTM) includes: Understanding Groupthink causes and techniques to mitigate."

Mitigação de Pensamento de Grupo inclui: Entender as causas de pensamento de grupo e as formas de mitigação

"Fostering cultural empathy includes: Understanding culture from the perspective of an anthropologist, to include cultural meaning, economics, social structure, religion, politics and globalization."

Promoção de Empatia Cultural inclui: Entendendo cultura pela perspectiva de um antropologista, para incluir significado cultura, econômico, estruturas sociais, religião, política e globalização.

"Applied Critical Thinking (ACT) includes: How we think, cognitive biases, intuition, complexity and systems thinking, and argument deconstruction."

Pensamento Crítico Aplicado inclui: Como nós pensamos, vieses cognitivos, intuição, complexidade e sistemas de pensamento, e desconstrução de argumentos.

"UFMCS curriculum is designed to improve critical thinking by teaching them how to ask better questions and challenge their assumptions they hold sacrosanct.
Red Team Leaders are expert in:
  • Analyzing complex systems and problems from different perspectives to aid in decision making, using models of theory.
  • Employing concepts, theories, insights, tools and methodologies of cultural and military anthropology to predict other’s perceptions of our strengths and vulnerabilities."
 O currículo da UFMSC é designado para melhor pensamento crítico ensinando os alunos a fazer melhores questões e desafiar as suas convicções mais profundas.
Líderes de times vermelhos são peritos em:
- Analisar sistemas complexos e problemas de diferentes perspectivas to ajudar no processo decisório, usando modelos teóricos
- Empregar conceitos, teorias, idéias, ferramentas e metodologias de antropologia cultural e militar para prever a percepção dos outros de nossas forças e vulnerabilidades.


            Bom, se um curso como esse fosse aberto para civis de outras nacionalidades, o que obviamente não é, eu embarcaria nos próximos meses para fazer um curso com essa proposta. Aliás, se eu tivesse um filho, esse seria o curso que gostaria que ele fizesse. “Tentar prever a percepção dos outros sobre nossas forças e vulnerabilidades”? Olhe ao seu redor, para si mesmo, quem faz isso? Qual mídia faz isso? Não é à toa que o exército americano é a força mais poderosa do mundo. 

            Não tenho como expressar a minha satisfação de como esse espaço em muitos artigos de maneira inconsciente nada mais estava reproduzindo a filosofia desse curso de formação de líderes. Não se trata de ter uma queda pelo Islamismo ou defender terroristas, por exemplo, mas entender as estruturas sociais, econômicas, legais e acima de tudo a diversidade de cores e formatos em que a religião muçulmana se manifesta.  Isso nada mais é do que promover a Empatia Cultural. Como já viajei por lugares que a esmagadora maioria das pessoas não faz nem noção de que existam, e encontrei comunidade muçulmanas em variados formados, etnias, graus de (in)tolerância, posso entender muito melhor o conceito de empatia cultural na análise desse caso específico. Apenas assim conseguimos ter uma noção mais acurada de como a realidade se apresenta, não repetindo clichês sobre o assunto. Tendo esse entendimento, provavelmente a luta contra o terrorismo, bem como contra a intolerância,  pode ser feita de maneira muito mais inteligente e eficaz.

            Tenho certeza absoluta que Trump não seria nem mesmo aceito como aluno para um curso como este. É engraçado, e ao mesmo tempo fascinante,  refletir  como o chefe de uma nação pode ser a antítese do que os sistemas mais sofisticados de decisões das organizações dessa mesma Nação operam. Essa é a força dos EUA, sem sombra de dúvidas.

            Depois de sair da Procuradoria, a quantidade de ideias que tenho tendo é impressionante. Imagine estruturar um curso desses no Brasil? Está aí uma ideia que vale a pena ser mais refletida. Em tempos onde uma pessoa como Olavo de Carvalho é tida como o maior filósofo de um país, Lula a salvação para o desmonte dos direitos, Bolsonaro apto a ser chefe de um país continental diverso de mais de 200 milhões de pessoas, e onde boa parte dos diálogos são apenas frutos de pensamento de grupo (ou de manada), falta de pensamento crítico ou a falta de qualquer empatia cultural, imagine o bem que não faria ao país se cursos como estes fossem ministrados pelo país? Com certeza, eu matricularia o meu filho num curso desses, e talvez fosse o melhor curso que ele faria na vida inteira.

            Um abraço a todos!

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

MINHA EXONERAÇÃO DO CARGO DE PROCURADOR

Faz tempo que queria escrever esse artigo. Talvez mais de cinco anos.  Sou arrependido do caminho que tomei? De maneira alguma. Não sou grato pelo que aprendi? Absolutamente.  Mais de 12 anos depois, minha história como Procurador Federal chega ao fim.

          Durante esse tempo aprendi muito sobre a miséria humana, sobre os outros, sobre mim mesmo, sobre a vida. Lembro-me como se fosse hoje de uma das minhas primeiras audiências. Um garoto de 18 anos que tinha tomado um tiro e ficado paraplégico. Até hoje penso naquele garoto, e na vida dele que foi alterada de maneira tão brusca numa etapa tão cedo da vida. Quantas mães e esposas que perderam os seus filhos e maridos não vi chorar em minha frente. Vi muita desfaçatez também é verdade.

       Durante certa  época sofri com o tratamento recebido. Quem me acompanha há mais tempo no blog, sabe que gosto de tratar dos assuntos com seriedade,  e sempre questionar aquilo que acredito não ser correto. No serviço público, mesmo na elite do funcionalismo, isso às vezes, ou quase sempre, não é muito bem visto. 

     No primeiro estágio fiquei com raiva. Algo que não faz bem para ninguém, muito menos para a pessoa que está sentido raiva. Depois senti indiferença. Um dos piores sentimentos, mesmo que endereçado para pessoas que não agiram de maneira correta comigo . A indiferença é algo terrível e faz um mal danado. Depois senti pena, outro sentimento que não nos leva a nenhum lugar. Foi apenas depois de muito refletir, e sentir todas essas sensações ruins, que percebi que na verdade as situações de desconforto e as pessoas que as criaram eram na verdade professores de vida. Foram elas que me forçaram a evoluir enquanto pessoa, a ir atrás de novos horizontes, a me desafiar. Talvez eu não estivesse escrevendo esse texto se não fossem essas situações e essas pessoas.

         Aprendi muito. Eu sou aquilo que vivi, como gosto daquilo que sou, então só posso agradecer aquilo que vivi.

O salário era muito maior do que necessitava, então pude economizar muito. Com certeza foi um dos pilares para chegar onde estou.  Tomo um caminho em sentido contrário do da maioria. Afinal, quem não quer não ter controle de horário, um salário de R$ 30.000,00 e ser chamado de Dr., tudo isso com estabilidade e respeito social quando as pessoas sabem o que você faz.  Muitos querem, e é natural que assim o seja.  Eu, porém, no atual estágio da minha vida, quero outras coisas.

Foram anos e mais anos me preparando financeira e psicologicamente para esse momento. Talvez já tenha feito centenas de cálculos. Quantos rabiscos não fiz de várias margens de segurança, várias formas de retiradas do patrimônio, várias períodos de abrangência. Acho que fiquei um especialista nessa área.

 Quando percebi que a parte financeira não era o que me segurava, afinal posso me dar o luxo de ter duas independências financeiras (uma aqui no Brasil, e outra com um portfólio em separado no exterior), resolvi tratar da parte emocional, dos medos, das inseguranças próprias e a dos outros. A viagem de quase dois anos que fiz por lugares soberbos do mundo foi com certeza uma amostra de como a vida pode ser espetacular, diferente, desafiadora, sem que se precise se apegar ao padrão tido como correto e vitorioso. Entretanto, é verdade que o governo Temer deu uma bela ajudada para a minha decisão, e tornou tudo mais fácil.

É isso, independência financeira de forma “oficial”.  O que vou fazer? Não faço a mínima ideia. Terminar o meu livro sobre leilões (que está ficando bom), especializar-me em investimento-anjo, ser um bom pai, viver em 9 lugares diferentes no mundo aprendendo os rudimentos da língua local nos próximos 18 meses, melhorar como cantor, ajudar mais os outros, não sei, e francamente isso nunca me preocupou. A vida é muito interessante e ampla para nos definirmos apenas pelos nossos trabalhos. Aliás, quanto mais se conhece do mundo, mais interessante ele fica.

É isso, colegas leitores, esse foi um artigo que ansiava escrever antes mesmo de ter um blog. Uma parte importante da minha vida fica para trás, outra se abre em minha frente. Estou tão tranqüilo, satisfeito e feliz, que tenho certeza que será uma vida ainda melhor do que a vida boa que venho levando.


Um grande abraço a todos.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

BITCOIN BOLHA OU REVOLUÇÃO?

                Olá, colegas.  Moedas virtuais. Não se fala em outra coisa.  Até mesmo amigos que não são do universo de se preocupar muito com finanças pessoais já comentaram sobre Bitcoins comigo. Podcasts estrangeiros sobre investimento falam sobre BTC. No meu blog já perguntaram para mim, que sou absolutamente leigo em moedas virtuais, o que penso sobre BTC.    Portanto, correndo o risco de escrever alguma bobagem, tecerei algumas reflexões relacionadas ao BTC e a temas correlatos.

      Primeiramente, gostaria de chamar atenção que manias especulativas muito provavelmente continuarão existindo na humanidade. Desde a bolha das tulipas na Holanda há séculos chegando a bolha dot.com nos EUA há 16 anos, o simples fato é que histórias sobre algo e,ou, cativantes sempre terão o poder de impressionar os seres humanos. O Professor Schiller no seu excelente livro “Exuberância Irracional” descreve que qualquer processo de bolha de ativos geralmente, ou quase sempre, é acompanhado de uma história que do ponto de vista intelectual faça sentido. Se a tecnologia irá mudar o mundo, se a internet é essa ferramenta poderosa que está transformando tudo que se conhece, então uma história que narre essa perspectiva talvez pudesse justificar precificações elevadíssimas de ações de tecnologia nos EUA no começo da década passada.

        Em segundo lugar, é incrível como nosso cérebro reage a certas coisas. Eu sou uma pessoa bem controlada e sei exatamente das minhas forças e limitações. Tenho certa clareza também em meus objetivos financeiros e de vida. Uma regra minha, copiada de W.Buffett, é de não investir naquilo que não conheço. Como sou leigo em criptomoedas, ou nas tecnologias que a cercam, jamais passaria pela minha cabeça (sem um estudo muito aprofundado) colocar qualquer dinheiro nisso. Entretanto, ao ver a cotação chegar a R$ 22.000,00, passou rapidamente pela minha cabeça “será que não devo comprar um pouco?”, o que, ainda bem, foi prontamente repelido por alguma outra parte do meu cérebro “claro que não, siga o seu plano que está tudo bem, lembre da sua estratégia”.

           Essas duas primeiras considerações não foram para dizer que há uma bolha em BTC. Ou que a cotação não possa ir para R$ 330.000,00 (os U$ 100.000,00 previstos por alguns), não amigos.  Foi apenas um relato de que, mesmo com conhecimento e estratégia definida, é natural que possamos ser “seduzidos” por uma história que faça sentido. Ora, faz sentido que as pessoas queiram apostar numa nova forma de encarar as moedas, faz sentido que pessoas queiram transacionar de forma sem controle estatal, etc, etc.  Porém, o ponto é que tudo isso fazia sentido quando o BTC tinha o preço de R$ 1.000,00, absolutamente nada mudou desde então em relação ao Estado, controle de câmbio, inflação monetária, desejo de liberdade, etc.  Entretanto, a história parece ficar mais sedutora ao ver o BTC aos R$ 22.000,00, o que realmente dá força a percepção de que de tempos em tempos manias especulativas invariavelmente irão surgir no mundo.

      Assim também como W.Buffett, eu tenho dificuldades em entender um ativo que não tenha o potencial de produzir um fluxo de caixa. Por este motivo, se não estou enganado, já vi o famoso investidor não recomendando o investimento em ouro, por exemplo. Como mensurar quanto vale um grama de ouro? Como saber se o ouro está sendo negociado a valores elevados ou não? Deixe-me abordar duas tabelas (a fonte pode ser acessada aqui):

Fim do Padrão-Ouro, medo do enfraquecimento total das moedas fiduciárias, e o ouro na década de 70 teve retornos ainda maiores do que W.Buffett nos seus anos mágicos. Nas décadas subsequentes, com a exceção da década 00, o Ouro teve retornos anualizados negativos acentuados.


Alguém que acreditou na história de inflação descontrolada e comprou ouro no começo da década de 80 (época de enorme inflação para padrões americanos) teve um retorno real anualizado nos últimos 35 anos de -1.5%. Sim, fazia todo sentido comprar ouro como reserva de valor no começo da década, mas esse fictício investidor perdeu -1.5% do seu poder de compra por ano durante 35 anos.

        Antes de comentá-las, é necessário esclarecer que até a década de 1970 o ouro, visto numa perspectiva de longo prazo, costumava acompanhar a inflação, ou seja, os retornos reais de investimento em ouro produziam rentabilidade próxima a zero.  No começo da década de 1970, os EUA abandonaram de vez o chamado padrão-ouro, o que fez com que o metal se valorizasse a um ritmo alucinante nos anos que se seguiram. Muito provavelmente, houve histórias convincentes de que o mundo iria degenerar numa inflação monetária sem fim das moedas estatais, e que o ouro era a única maneira de se proteger do arbítrio expansionista de Bancos Centrais pelo mundo.

      Se na década de 1970 essa história fez sentido, nas outras décadas (80,90,00) parece que não fez mais tanto sentido, e uma valorização anual real de quase 24% ao ano na década de 70, se transformou numa valorização real de 3.7% ao ano desde a década de 70 (quase em linha com títulos de dívida soberano dos EUA). O Ouro, é claro submetido a variações violentas no curto-médio prazo, mesmo num mundo de inflação monetária muito mais pronunciada, parece que (depois dos turbulentos anos 70) voltou ao seu local natural de reserva de valor e potencial de retornos reais baixos em períodos maiores de tempo.

         Percebam, prezados leitores, que se digo que um FII vale 10 vezes o seu fluxo de caixa anual, ou se uma padaria vale pelo menos cinco vezes o seu faturamento, há uma métrica objetiva pela qual eu posso comparar se o preço está adequado ou não. Em relação ao ouro, essa métrica inexiste,  pois uma barra de ouro não produz absolutamente nada.  Se a ideia do ouro como reserva de valor faz sentido, então a ideia de que o ouro não deva produzir retornos reais acentuados no longo prazo também possa fazer sentido. Baseando-se nisso, talvez seja possível dizer se o ouro, em sua tendência histórica, esteja sobreprecificado ou não. Porém, é difícil mensurar quanto investidores estão dispostos a pagar por uma reserva de valor num determinado momento.

    Nesse sentido, talvez o BTC, ou outras criptomoedas, representem uma reserva de valor.  Um BTC, até onde eu  sei, não é capaz de produzir mais BTCs, ao contrário de um imóvel que pode produzir outros “imóveis em potencial” pelo recebimento de aluguéis. Se assim o é, o BTC teria um comportamento como o ouro? Precisaríamos de pelo menos algumas décadas para poder fazer qualquer afirmação nesse sentido, já que a tecnologia é extremamente nova. Porém, o que ocorreu com o ouro na década de 70 pode ser um ponto de partida para refletir o que acontece com ativos que são vistos como reserva de valor frente a uma “história” de desvalorização contínua e acentuada de moedas tradicionais.

        E se o BTC virar uma forma de reserva de valor com muito mais utilidade do que o ouro? E se o BTC substituir o ouro nessa função? Mesmo sem conhecer profundamente os mecanismos de operação por meio de criptomoedas, parece-me claro que é muito mais simples comprar um BTC do que comprar 100 gramas de ouro, sem contar os eventuais custos de custódia e manutenção. Nesse sentido, o BTC como reserva de valor pudesse ser muito mais prático e eficiente. Quem sabe não seja esse o futuro.

       Entretanto, os ensinamentos de Taleb de como refletir sobre novidades creio que são profundos e muito interessantes. Conforme Nicholas Taleb em seu livro “Antifrágil”, quanto mais tempo uma tecnologia existe, maior a sua probabilidade de continuar existindo. Quanto mais nova uma tecnologia, menor a probabilidade de ela continuar existindo. Pense na tecnologia “cadeira” e há quanto tempo ela existe. Como diz Taleb, nós nos surpreenderíamos ao ver que uma cozinha romana de 2000 mil anos atrás talvez seja muito semelhante com uma cozinha moderna atual no que tange aos utensílios.  O escritor libanês gosta da sabedoria dos antigos e na sua resiliência, e talvez essa reflexão seja  influenciada por esse aspecto do seu caráter. Porém, a ideia faz todo o sentido, quanto mais tempo algo ou uma tecnologia sobreviveu ao “caráter aniquilador do passar do tempo, mais robusta e apta a sobrevivência parece ser essa tecnologia ou ideia.

          O Ouro é conhecido como uma reserva de valor por milênios. Ou seja, é uma tecnologia, ou ideia, que acompanha a humanidade há bastante tempo.  Sendo assim, eu acompanharia Taleb no raciocínio, e seria ao menos cético de que algo que existe há milênios possa ser substituído por uma tecnologia nova. Diria que essa não é a maior probabilidade, o que obviamente não quer dizer que não possa ser o caso.

         Por fim, para não deixar o artigo muito longo, gostaria de encerrar o texto voltando levemente às primeiras considerações feitas.  Na minha modesta opinião de investidor, e a estendo para a  vida como um todo, qualquer pessoa precisa fazer escolhas.  O mundo multitarefa de hoje dá a falsa, pelo menos para mim, perspectiva de que podemos fazer inúmeras coisas ao mesmo tempo. Não, não podemos, ao menos não com profundidade e qualidade.  Como sempre temos que escolher sobre o que investir, o que estudar, com quem se relacionar, para onde viajar,  etc, etc, e é natural que os caminhos que não escolhemos possam parecer promissores depois da escolha feita.

           Precisamos saber conviver com isso. Talvez essa seja uma das maneiras de se alcançar uma vida plena.  Não podemos estar em todos os lugares ou fazer inúmeras atividades, aceite esse fato da vida. Assim, voltando especificamente para investimentos, não podemos estar em todas oportunidades que o mercado oferece. Há tantas maneiras de ganhar dinheiro: com leilões de imóveis, analisando empresas na bolsa de valores, comprando e vendendo negócios pequenos (como nosso colega Corey fazia), sendo visionário numa tecnologia promissora (como nosso amigo Viver de Renda e seus BTC maravilhosos), vendendo livros, comprando FII na hora certa, etc, etc. Acredite-me, prezado leitor, oportunidades é que não faltam.

        Uma das minhas maiores vitórias mentais enquanto investidor foi ter me libertado da sensação de “perda de uma oportunidade”. Se não comprei dólar quando estava muito barato, paciência. Se eu perdi aquela empresa redondinha que estava sendo negociada a múltiplos baixíssimos, ok não posso fazer nada. Se perdi um Unicórnio (termo de investidores anjos para aquelas empresas que aumentam de valor 1000/10000 vezes), faz parte. O importante é que o investidor sinta-se seguro em suas escolhas, e tenha objetivos e estratégias definidas. Se mesmo perdendo oportunidades você está mais próximo dos seus objetivos, não fique desapontado ou triste com o que perdeu, mas alegre-se de estar mais próximo daquilo que talvez o faça ficar satisfeito com a vida. Assumo que você, prezado leitor,  está fazendo o dever de casa e esteja construindo objetivos financeiros alinhados com os seus valores de vida.

      Apenas como uma nota final, falo sobre poder. Desde o advento da revolução agrícola há 10-12 mil anos, o que possibilitou o adensamento populacional humano, seres humanos dominam outros seres humanos. Sempre foi assim, e é questionável pensar que não será assim nos próximos séculos ao menos. O poder de certa forma foi contido com a criação dos Estados Modernos de Direito. O Estado Moderno, abominado por algumas ideologias, nada mais é do que uma forma de poder controlado e mais transparente do que outras formas de poder que existiram durante a história humana.


     Sendo assim, eu veria com extremo ceticismo a ideia que moedas virtuais de alguma maneira irão minar o poder, nesse caso o poder estatal sobre o controle monetário e de suas divisas. A mesma internet que serviu e serve como ferramenta para exigir mais transparência dos detentores de poder, também serve para exercer uma vigilância aguda nas pessoas por aqueles que detém o poder, como o caso Edward Snowden deixou bem claro. A tecnologia não precisa ser impedida, ela pode ser moldada a vários objetivos. Às vezes, como vivemos em tempos de paz e sem muitas guerras, as pessoas se esquecem que quem realmente manda é quem possui os exércitos. Sempre foi assim, e duvido seriamente que isso mude na humanidade tão cedo.

       É isso, amigos.  Não faço a mínima ideia se BTC é bolha, ou se vai assumir um papel relevante como meio de troca, ou como reserva de valor revolucionando e pressionando as moedas estatais.  Talvez seja um misto das duas coisas, quem sabe? Aliás, não domino nem os fundamentos técnicos da coisa para poder dizer algo mais categórico a respeito.  Porém, mesmo assim, espero que esse artigo possa ajudar na reflexão sobre o tema.


                Um abraço a todos!