domingo, 11 de junho de 2017

UM PASSEIO POR TRÊS NOTÍCIAIS DA SEMANA

Olá, colegas. Eu firmemente encorajo uma dieta de informação, principalmente as completamente desnecessárias e que só fazem mal aos nossos sentidos. Porém, confesso que nas últimas semanas tenho visto, talvez mais do que o desejável, sobre notícias do dia a dia. Assim, comento três delas não conectadas, ou talvez interligadas num plano extremamente abstrato, mas que chamaram muito a minha atenção.



A VERGONHA DO TSE


  Uma parte significativa dos leitores desse espaço sabe que minha formação é jurídica. Alguns perguntam se sou servidor do Judiciário ou de algum outro órgão. Não, trabalho como Procurador. Talvez algum dia fale mais sobre o que aprendi com o meu cargo, os meus desgostos, etc, mas não é o ponto desse artigo. Apenas mencionei a minha profissão para deixar claro que entendo todos os termos jurídicos utilizados numa decisão judicial, o que a maioria da imprensa, e com certeza da população, não faz muita ideia. Sou um grande conhecedor do direito, um acadêmico? Não, longe disso, mas considero que tenho um senso jurídico razoável ao menos.

  Pois bem. Resolvi acompanhar boa parte do Julgamento da chama Dilma-Temer. Para quem acompanha os meus textos, esse acontecimento, e não o impeachment , deveria ser o ato mais importante de todo o imbróglio político em que nosso país se meteu. Falo isso desde 2015.  Evidentemente, o julgamento em junho de 2017 de um mandato que começou em janeiro de 2015 não faz sentido. Esse processo tinha que ter sido julgado antes.

 Todo julgamento feito por um Tribunal, ao menos no Brasil, precisa ter um relator, um juiz que ficará responsável por dar andamento ao processo. Nesse caso, foi o Ministro Herman Benjamin. Tenho que admitir que o conhecia apenas de nome, mas depois fiquei sabendo que ele tem uma produção acadêmica muito extensa.  O voto dele sobre o caso foi simplesmente primoroso. A condução dele foi absolutamente escorreita. Calmo, rápido em responder as provocações, não se alterou em nenhum momento. A conduta técnica dele foi exemplar.

Ele é ético? Não posso afirmar. Ele é um bom pai de família? Como vou saber. Ele já cometeu algum ilícito? Não faço a mínima ideia. Entretanto, o Ministro Herman Benjamim agiu da maneira que se espera que um magistrado de um Tribunal Superior num caso tão importante agisse.

 Surgiu então uma "tese", tratada como preliminar ao mérito, de que houve uma ampliação indevida da causa de pedir. Não vou entrar em técnica jurídica aqui, mas o Sr. Herman Benjamin, ajudado pelo Ministro Fux que é um processualista conhecido, tratou de maneira tão clara e elucidativa de que não estava ocorrendo uma ampliação indevida da causa de pedir que até um estudante de direito que prestou atenção compreendeu. A "tese" tinha como único escopo não levar em consideração as provas produzidas pelos marqueteiros de campanha e pelas delações da empresa Odebrecht.

 O que tornou tudo ainda ainda mais insólito, e porque não dizer fétido, é que o julgamento que estava programado para acontecer em abril deste ano, foi adiado por decisão do próprio Tribunal, para que se ouvissem os marqueteiros. É claro que o pedido de adiamento foi costurado para que o Presidente Temer pudessem indicar dois novos Ministros, já que o mandado de dois Ministros estava acabando.  Mas mesmo assim, como pode o Tribunal que determinou a produção de uma determinada prova, dois meses depois dizer que aquela prova não deveria ter sido produzida? Eu não estou analisando aqui as questões políticas, mas sim apenas a parte lógica e técnica da questão. Evidentemente, não faz o menor sentido.


 Ao ver que essa “tese" iria prevalecer, o Ministro Herman então explicitou de forma didática que mesmo se as provas da chamada "fase Odebrecht” não fossem aceitas, ainda sim havia provas mais do que suficientes para a cassação da Chapa.

 O que se seguiu no voto dos ministros discordantes foi um verdadeiro show de horrores, seja da técnica, seja do bom senso. Houve até mesmo um voto de que o Ministro não abordou nenhuma prova, absolutamente nenhuma prova. O Voto dele não tinha começo, meio e fim. Chegou até mesmo  a falar de Maomé, mas não analisou as provas nos autos. Julgou improcedente as ações, pois os fatos eram sim graves, mas deveriam ser apurados em outras esferas. Uau.

 O último voto do Ministro Gilmar Mendes foi um escárnio total e completo. Ele disse que a ação era muito importante porque se tratava do Presidente da República. Correto. Asseverou que só poderia haver cassação se houvesse provas e fatos graves. Correto mais uma vez. No final, expressou que a estabilidade do país tinha que ser mantida. Ele não fez a conexão entre a premissa, existência ou não de fatos graves, e a sua conclusão de necessária estabilidade do país.

 Ora, se o argumento era a estabilidade do país, com muito mais razão então o processo de impeachment contra a Dilma não deveria prosperar, muito menos por alegadas pedaladas fiscais. E aqui não digo que não deveria haver o impedimento, mas simplesmente se o argumento é que a estabilidade do mandato presidencial é tão importante, mesmo diante de claros desvios de condutas, como foi asseverado diversas vezes no voto do Ministro Gilmar, o mesmíssimo argumento se aplicaria ao impedimento da Dilma. Eu acho que a estabilidade institucional se alcança com a aplicação da Lei, e com a obediência à Constituição. E a decisão do TSE vai em direção contrária a isso.

  Quando do impedimento, imaginava que a situação do Brasil do ponto de vista político iria piorar, e tinha receios de que em 2018 nós pudéssemos encarar algo completamente inusitado na eleição. Hoje, tenho uma sensação muito mais forte de que estamos pavimentando o surgimento de algo ainda pior para o país.  Talvez pelo meu passado de jogador semi-profissional de xadrez, eu não consigo imaginar nada sem projetar os reflexos no futuro muitos “lances” a frente, algo que talvez não seja normal para boa parte das pessoas, mesmo analistas profissionais.

 Agora, Temer, vai ser Denunciado pela Procuradoria. Muito provavelmente a Denúncia será barrada no Congresso e com todos esses atos estaremos produzindo um futuro incerto para o país, com consequências talvez profundamente negativas. 

 Já ouvi pessoas falando no mesmo Parágrafo que Temer era um grande político por causa de sua habilidade, e Lula um ladrão inveterado. Isso pode ser verdade. Como se pode inverter a frase e dizer que Lula é um grande político habilidoso e Temer um ladrão inveterado. Também pode ser verdade. Na bem da verdade, as duas frases podem ser corretas, elas não são excludentes.  A cegueira a esse fato de pura lógica formal, e que muitas pessoas parecem estar no mínimo míopes, é algo que além de me causar curiosidade, causa me tristeza de como nossa educação realmente é falha.


O ATENTADO AO ÚLTIMO LUGAR QUE VISITEI NA MINHA VIAGEM DE DOIS ANOS


    Às 12:00 do dia 07 de dezembro de 2016, o meu corpo foi submetido a uma sensação térmica de -30 graus Celsius. Estava em Teerã, a capital do Irã, mais especificamente numa estação de esqui que fica na própria cidade. Como para chegar da Estação ao metrô mais próximo teríamos que andar bastante, como já estávamos acostumados a fazer nos últimos meses, fizemos o sinal e quase que imediatamente um Iraniano parou para dar carona.

Esse foi o visual do Último dia, sensação térmica de -30 graus.

  Rapaz simpático, ficou muito feliz de praticar o Inglês dele, e quando dissemos que éramos do Brasil, abriu um grande sorriso.  No meio do engarrafamento caótico da capital Iraniana, o nosso caroneiro acende um cigarro de maconha e começa a falar mal do regime iraniano atual (algo que ouvi diversas vezes, principalmente de pessoas da classe média).  Oferece o cigarro, mas eu tenho pavor de qualquer tipo de cigarro com qualquer tipo de substância, declino com educação. Liga até mesmo para a mulher para dizer que está com dois brasileiros no carro. 

 Fomos deixados pelo motorista numa estação de metrô, vamos então até um bairro tradicional para comermos num restaurante típico.  Voltamos para o nosso hotel.  São 20:00. "Vamos parar no mausoléu do Khomeini antes de irmos para o aeroporto?", pergunto para  minha companheira, “sim, vamos” é a resposta.

 Em poucas horas estaríamos pegando um voo de volta para o Brasil, após quase dois anos de uma viagem inesquecível. A parada no mausoléu seria a nossa última atividade, seria o fim da nossa viagem. O Aeroporto de Teerã fica a uns 50km do centro, e o mausoléu a uns 20km do Aeroporto. Conseguimos ir de metrô até a última estação que era do mausoléu. Combinamos então com um taxista que depois de uma hora, iríamos para o aeroporto. Negociamos o preço de U$4,00 para ele nos esperar e nos levar ao aeroporto.

  Não deixamos a mochila com o taxista, andamos pela última vez com elas nos ombros. É noite, não tem quase ninguém e a construção é imensa. Queria ir ao cemitério dos mártires (soldados iranianos mortos na Guerra Irã-Iraque), mas não tenho disposição. Deixamos as mochilas de fora, e eu entro na construção. Gigantesca, luxuosa. Não é o tipo de coisa que gosto de ver. Penso no dinheiro para construir um prédio daquele,  e que assim como o Brasil, o Irã não é um país rico, e o Governo deveria ter outras prioridades de gastos (como nota de curiosidade, o Irã é um dos países com a menor carga tributária do mundo. De país funcional, tirando países como Guiné Equatorial, Arábia Saudita, talvez o Irã seja o país com a menor carga tributária do mundo). 

  Entro então na grande mesquita, não há estrangeiros, e sou recebido com olhares tranquilos e sorrisos. Muitas pessoas dormem. Viemos a perceber, durante nossos 30 dias no Irã,  que as mesquitas servem como uma espécie de refúgio para as mulheres, ou para pessoas com dificuldade. A Religião lá, ou melhor dizendo a parte institucionalizada da religião, tem um papel muito forte na vida de muitas pessoas no país, algo que não existe mais tanto no ocidente, principalmente em países mais ricos. Esse tipo de coisa você não lerá ou ouvirá em nenhum lugar, muito menos no Brasil.

  O mausoléu do Aiatolá Khomeini ficou para trás, entramos no táxi e terminamos a nossa viagem. É no mausoléu, na entrada do complexo, que vejo pela televisão uma explosão. Atentados terroristas do chamado Estado Islâmico aconteceram na capital iraniana, tanto no Parlamento como no mausoléu. 

  O presidente Trump então se diz simpático as vítimas, mas que Estados que apóiam o terrorismo correm o risco de provar do próprio veneno. O mesmo Trump que semanas antes apareceu sorrindo ao lado dos dirigentes da Arábia Saudita, um país de orientação salafista com hábitos medievais que com um grau de probabilidade imenso coloca dinheiro em várias organizações terroristas. 

 No discurso feito na Arábia,  Trump diz que o Irã  é o perigo real por trás do terrorismo, não a Arábia Saudita. A razão parece sucumbir, será que ela tem alguma importância? A decisão do TSE e as falas de Trump dão a sensação que a racionalidade sobre o que é verdadeiro ou falso realmente em certos aspectos da nossa vida realmente se perdeu, e que a inteligência humana está sobre ataque (um bom cínico talvez pudesse dizer que sempre esteve).


A GRANDE DESCOBERTA E A MINHA ODE À RAZÃO (MAIS UMA VEZ)


  Sou um grande entusiasta da Ciência e de argumentos racionais. Tanto é verdade que para alguns às vezes posso soar irritante, pois eu não me irrito facilmente, muito menos se o que se está discutindo são argumentos. O que pode irritar mais uma pessoa que está obcecada com uma ideia do que encontrar alguém que não se ofende em ser contrariado?

  Sendo assim, e por realmente me interessar pelo tema, foi com extrema surpresa e satisfação que recebi a notícia de que a nossa espécie talvez possa ser mais antiga do que imaginávamos. Cem mil anos mais antiga para ser exato. Cem mil anos é muito tempo na escala evolutiva da nossa espécie. 

 O mais incrível é que os fósseis, que tinham sido achados na década de 60, foram encontrados numa Caverna do Marrocos.  Marrocos fica na parte Noroeste do continente. Os fósseis mais antigos, até então, de Homo Sapiens foram encontrados na Etiópia que está no Leste da África (milhares de quilômetros separados). Sendo assim, talvez a teoria de berço da humanidade, “O Jardim do Éden” da espécie talvez não seja a hipótese mais correta (e estou falando aqui do conceito científico, não do bíblico), talvez a humanidade tenha surgido em vários lugares da África ao mesmo tempo.

 Ainda haverá muito debate, pois os fósseis encontrados possuem uma aparência muito semelhante com um Homo Sapiens moderno, mas há certas diferenças no Crânio. Será que é realmente um Homo Sapiens? Será que foi os primeiros estágios da nossa própria espécie? Será que é uma outra espécie, uma transição que ajude a explicar a separação no tronco evolutivo entre a nossa espécie e o Homem de Naeanderthal com o ancestral comum?

 Muitas perguntas, e apenas a razão humana poderá tentar responder. Apenas o intelecto humano é capaz de solucionar essas perguntas tão importantes. Se elas aparentemente não tem importância para o preço da gasolina, ou de como o seu chefe o trata, elas são fundamentais para entender as nossas origens enquanto espécie, talvez seja uma das perguntas mais fundamentais que um ser humano possa fazer.

 As origens da nossa espécie não possuem apenas uma carga filosófica, mas também de origem prática. Por que agimos como agimos? Há cidadãos "de Bem"? Como nos comportamos em relação à desonestidade? Cada vez menos me interesso por ideologias a respeito do assunto e mais pelo que a ciência tem a dizer a respeito. É um dos temas que mais aprecio. É um dos temas que quase ninguém aprecia tanto. 

 Aprecia-se quando é relacionado a algo bem prático e utilitário, ou seja como usar gatilhos mentais para fazer com que o seu site tenha mais acessos, ou como evitar armadilhas mentais para não fazer erros muito grosseiros em mercados financeiros, por exemplo. Quando linhas de pesquisas semelhantes mostram que não somos tão honestos como achamos que somos, ou tão bons como achamos que somos, e que nossas ideias sobre aspectos fundamentais podem ter furos enormes, esses achados da Ciência são quase sempre ignorados, assim como quatro Ministros do TSE fizeram com as provas nos autos das ações que pediam a cassação da chapa Dilma-Temer.

 Terrorismo, política, finanças pessoais, Temer, brigas familiares, dietas, Lula preocupações com os filhos, Trump, Brexit, o mundo atualmente é um caldeirão de informações, fatos, obrigações e neuroses. A razão humana não é a única forma de lidarmos com tudo isso, é verdade, mas quando deixamos de lado a nossa inteligência e a capacidade de raciocínio, abrimos mão de uma das características mais especiais na nossa espécie.

Eu sempre me surpreendo ao ver reconstruções faciais da espécie humana Neanderthal, o quão parecidos eles são com a nossa espécie. Há teorias que indicam que eles trabalhavam a madeira, fazendo inclusive espécies de cabanas.  Incrível.



 Um abraço a todos!

domingo, 4 de junho de 2017

FUNDAMENTO - EXPLICANDO O RETORNO FINANCEIRO DE UM ATIVO



Olá, colegas. Volto a falar sobre investimentos.  Quanto é o retorno potencial de um determinado ativo? Evidentemente, essa é a pergunta que inúmeras pessoas fazem ao redor do mundo diariamente, sejam profissionais ou não. Há inúmeras nuances, é claro, mas espero que este artigo torne claro que não é tão difícil entender a dinâmica do retorno dos ativos.



 Um dos grandes clássicos na literatura sobre investimentos é um livro chamado “A Random Walk down Wall Street” de um sujeito chamado Burton Malkiel. Recomendo a todos a leitura do mesmo, já li duas vezes a obra, , pois em suas quase 500 páginas há quase que um resumo de muito boa qualidade sobre quase todos os tópicos de finanças que possam interessar um investidor amador .   

Recomendado pelo Soul :)


 No capítulo 13 da obra, ele aborda quatro eras de retornos do mercado americano começando em 1946 indo até 2009 (a edição do livro é de 2012).  As quatro eras ele divide da seguinte maneira:

a)      Janeiro de 1946 a Dezembro de 1968 – Era do Conforto

b)      Janeiro de 1969 a Dezembro de 1981 – Era da Angústia

c)       Janeiro de 1982 a Março de 2000 – Era da Exuberância

d)      Abril de 2000 a Março de 2009 – Era do Desencanto




 Podemos perceber pelo nome que o autor deu as Eras que em duas delas os retornos foram bons, em duas delas os retornos foram ruins.  Na Era da Exuberância, por exemplo, o autor diz que os retornos do S&P500 (Malkiel é um defensor do investimento passivo em índices de mercado para o pequeno investidor, e até mesmo para a maioria dos gestores profissionais), foram de inacreditáveis 18.3% aa , com uma inflação no período de apenas 3.3% aa.  Já na Era do Desencanto, o mesmo índice acionário S&P500 teve um retorno de -6,5% aa (ênfase no negativo na frente do número) com uma inflação de 2.4%aa, ou seja, o fumo foi grande para quem estava posicionado em ações nesse período.



   Apenas para maior detalhamento, ao consultar eu mesmo os retornos do índice S&P500 nesse site https://dqydj.com/sp-500-return-calculator/ , encontrei números levemente diferentes. Com o (re)investimento de dividendos o retorno foi de 18.4% aa para a Era da Exuberância e -5,46% aa para a Era do Desencanto.

  Porém, a ideia com esse texto não é dissecar os retornos do mercado acionário americano, mas apresentar a uma noção muito simples de como refletir sobre o retorno de um ativo financeiro.  Esse tipo de análise pode ser feita para qualquer ativo que tenha a capacidade de gerar renda, seja um título de dívida, um imóvel para alugar, ou uma franquia do subway.


  Malkiel então escreve que o retorno de um ativo se dá pela simples fórmula abaixo:

RETORNO DO ATIVO =  (DIVIDENDO + CRESCIMENTO DOS LUCROS) X MUDANÇAS DE PRECIFICAÇÃO



   Os termos em si são de fácil entendimento, mas entremos em mais detalhes. Essa equação parte da premissa que a quantidade de lucro distribuída para o dono do ativo se mantenha constante, ou dito de outra maneira que o payout não muda.  Para facilitar o entendimento, vamos supor uma empresa que distribuiu todo o seu lucro para os acionistas. Essa assunção não é real, pois uma empresa precisa reter nem que seja uma parcela pequena dos seus lucros para investimentos, mas com ela o entendimento dos termos da equação fica mais simples.



   Suponha-se então uma empresa que gera R$ 10,00 de lucro por ação. O mercado precifica que o lucro dessa empresa vale 10 vezes o seu preço, sendo assim temos um P/L de 10 e um Preço de R$100,00 por ação. Para Malkiel o retorno futuro dessa empresa pode ser estimado, ou entendido se olharmos para o que aconteceu no passado, aplicando a simples fórmula descrita. 


  No cenário A, a empresa em 1 ano cresce o seu lucro 10% e a precificação do mercado permanece a mesma. No cenário B a empresa cresce o seu lucro em 20% e a precificação do mercado cai pela metade.


CENÁRIO A: RETORNO DO ATIVO = (10% + 10%) X multiplicador de mudança da precificação = 20%

CENÁRIO B:  RETORNO DO ATIVO = (10% + 20%) X - X multiplicador de mudança da precificação = -30%

 Ficou confuso? Explico.



 Vamos supor que no começo do ano seja distribuído R$10,00 em dividendos.  No cenário A, se os lucros subiram 10%, quer dizer que no começo do ano poderão ser distribuídos R$ 11,00 (R$ 10,00 + 10%), e como o nível de precificação se manteve o mesmo (P/L de 10), quer dizer que a ação agora vale R$ 110,00 (110/11 = 10), sendo assim o retorno no cenário A é R$ 10 + R$10 = R$ 20,00 (=20%).



  No cenário B, foram distribuídos R$ 10,00 também. Os Lucros aumentaram para R$ 12,00 (R$ 10,00 + 20% de aumento de lucros). Porém, o nível de precificação mudou para menos. Antes o mercado pagava 10 unidades monetárias por uma unidade de lucro, mas agora paga somente cinco unidades monetárias por uma unidade de lucro. Como o Lucro agora é R$ 12,00, para equivaler a um P/L de 5, o preço da ação agora é de R$60,00.  Logo, o retorno é R$10,00 – R$40,00 = -R$ 30,00 (-30%).



   Tudo isso é muito fácil de entender. Aliás, muitas das coisas importantes da vida não são tão complexas. Entretanto, entender os pressupostos fundamentais é algo muitas vezes não estimulado ou até mesmo esquecido.  Com essa simples equação, e com essas simples variáveis, nós podemos refletir sobre diversos aspectos dos mercados financeiros.



  Poderíamos raciocinar sobre o conceito popularizado pelo site Bastter de que a cotação de um ativo financeiro segue o lucro. Isso não é necessariamente verdade, ou melhor dizendo, uma meia verdade. Pela equação fica evidente que quanto mais o lucro aumentar, maior a rentabilidade, mas se a precificação diminuir, o retorno do ativo pode ser até mesmo negativo. “Ah, Soul, mas o cenário de B não é real, um ativo que aumenta os seus lucros e o mercado diminui a precificação? Isso não acontece”. Não?  Permitam-me então eu falar de novo nas quatro eras do livro de Malkiel.



 Na última era (do desencanto, ou podemos nomear como a era do fumo), essa é a divisão do retorno:

Yield inicial de 1.2%

Aumento no Lucro: 5.8%

 Sim, amigos, o lucro das empresas que compõem o S&P500 aumentou 5.8% aa, o que não é um número fraco. Na verdade, é um número excelente.  O que explica então um retorno de -6.5%aa?



 Na Era da Exuberância essas foram as divisões dos retornos:

Yield inicial: 5.8%

Aumento no Lucro: 6.8%


  O aumento dos lucros foi maior do que a Era do Desencanto, mas não muito maior, apenas 1% a mais. Como num determinado período o retorno anualizado foi de 18.3% e o outro foi -6.5%? A resposta simples é Mudança na Precificação.


 Portanto, aumento dos lucros não necessariamente leva a um retorno positivo de um ativo financeiro, e mesmo em períodos longos de tempo de 10 anos.  A diferença entre o começo de uma era e outra é que os níveis de precificação do mercado eram muito diferentes, e isso pode ser visto olhando apenas o yield inicial. Em janeiro de 1982 se tinha um yield absurdamente alto, para padrões americanos, de 5.8%. Em abril de 2000, esse mesmo yield era de 1.2%.



  Logo, precificação importa e muito para retornos futuros. Há vários artigos que quero traduzir para o português e o público da blogosfera de finanças sobre esse conceito, principalmente relacionado a Independência Financeira.



  E foi só desespero para o investidor americano na primeira década do Milênio? Não, os BONDs (renda fixa), por exemplo,  tiveram retornos excelentes de 6.4% aa na última Era. Mesmo na Era da Exuberância, o retorno dos BONDs foi de 13.6% aa, o que é algo muito alto. Nas outras duas Eras, o retorno da renda fixa americana foi abaixo da inflação média do período.  É verdade o que muitos livros estrangeiros falam, os BONDs estão num rali desde o começo da década de 1980, e isso pode estar chegando ao final com uma grande reversão, mas não é o objetivo desse artigo falar sobre isso.



  Portanto, a diversificação, e apenas ela, pode ter amenizado a crise do mercado acionário americano para um investidor americano.  Diversificação em mercados internacionais, em imóveis, e em títulos de dívida. Não preciso dizer que essa é uma lição para o investidor brasileiro também. 

 Não leve muito a sério quando alguns textos falam que os números de mercados desenvolvidos não podem ser aplicados para o Brasil. É claro que as suposições sobre crescimento de lucros, regulações boas ou ruins, etc, são diferentes, mas essa fórmula do Malkiel serve tanto para o mercado americano, como para o mercado brasileiro, como para o mercado iraniano.



  Iria continuar o artigo, mas vou deixar para um próximo. Nele vou abordar a gestão ativa de investidores amadores, e onde eles podem ter alguma chance de alcançar retornos em excesso, e onde é muito difícil ter retorno em excesso (e é basicamente onde estão os grandes retornos).



  Um abraço!




sexta-feira, 19 de maio de 2017

CONSUMIR OU NÃO CONSUMIR, EIS A QUESTÃO



Olá, colegas. Sobre o que escrever? O colapso do governo atual? O circuit breaker da bolsa? Não, não estou com vontade de criar um texto mais aprofundado sobre estes temas.  Quero falar sobre um assunto muito mais fundamental, que está absolutamente relacionado com a nossa vida no dia a dia, com nossas aspirações financeiras, com nossos receios. Quase tudo se resume a isso hoje em dia, é claro que só posso estar falando de CONSUMO.



  O consumismo é a raiz dos nossos males modernos alguns dizem. Outros dizem que o consumo é a prova do nosso progresso enquanto espécie “vejam, como o consumo per capta aumentou nos últimos 300 anos, isso é sinal do progresso”.  Eu creio que essas duas visões estão erradas, e estas duas visões estão certas.  Ou seria melhor dizer que há pontos negativos e positivos em ambas as abordagens? Escolha você, prezado leitor, a forma de encarar a problemática que mais lhe agrade.



 Todos nós seres humanos somos consumidores. Nós temos que no mínimo consumir comida.  Tirando alguns povos remotos que relembram como vivíamos há 20 mil anos, também precisamos consumir produtos que nos protejam das intempéries da vida. Logo, o consumo é algo natural para seres humanos, e ousaria dizer até mesmo para outras espécies de vida. Se é algo ínsito da nossa vida enquanto sapiens, o consumo nos traz bem-estar e felicidade? É claro que traz.



 Você foi largado no meio da Sibéria no começo do outono. Não são temperaturas congelantes, mas é frio. Está sem roupa. Está com fome. Os seus pés doem por causa do frio e o contato com a terra gélida. Você está miserável, completamente infeliz. Você não tem capacidade de consumir nada, você está como veio ao mundo.  Quando tudo parece perdido, você observa uma casa. Na habitação, há uma sorridente família siberiana. Eles o convidam a entrar. Dão para você roupas quentes.   Você senta perto de uma lareira, e então sente um cheiro de comida sendo feita, sua saliva é produzida em grande quantidade. A comida, simples, estava deliciosa.  Uma cama, simples, está esperando por você.



 O seu estado de infelicidade total foi transformando num estágio de felicidade imensa, e isso só foi possível porque você consumiu coisas. Esse consumo só foi possível porque alguém colocou esforço e produziu esses bens. Portanto, pode-se dizer que o consumo trouxe bem-estar e felicidade. Pode-se afirmar também que para haver consumo é necessário que alguma prévia produção tenha existido.  Ora, se o consumo de coisas simples (no contexto de nós humanos no século 21) aumentou tanto o seu bem-estar, parece lógico supor que um consumo cada vez maior, e de coisas mais complexas, vai levar ao aumento de satisfação e bem-estar. ESSE É O PRESSUPOSTO BÁSICO DA NOSSA FORMA DE VIVER E PRODUZIR COISAS ATUALMENTE. Ele parece lógico.



  Você então pega um trem até Moscou. E de lá volta para a sua vida de classe média no Brasil. Olha então em sua volta, um belo apartamento. Um carro esteticamente muito bonito na garagem. Uma geladeira cheia de comida.  Você tem um padrão de consumo muitas vezes maior do que aquele  experimentado na cabana da Sibéria, mas você é pego várias vezes refletindo naquela noite na Rússia, e como você se sentia tão ou mais realizado do que se sente atualmente. Mas como? Um aumento grande da sua possibilidade de consumo não traduziu necessariamente num aumento do seu bem-estar.  BEM-VINDO AO SUPOSTO “PARADOXO” DA VIDA DOS DIAS ATUAIS PARA MUITOS SERES HUMANOS.


  Quem já não sentiu isso? Eu, por exemplo, já experimentei diversas vezes essa sensação. Estou com fome, frio, triste, até um pouco mal-humorado, e de repetente me vejo aquecido, comendo uma sopa com pão junto com pessoas alegres, e o meu “coração” se enche de alegria, sinto um bem-estar indescritível.  O meu patrimônio superou uma determinada faixa que muitos considerariam bastante dinheiro, e eu não sinto nada demais.  Mas como isso? Se um patrimônio maior me permite consumir muito mais?


  Alguns tentam explicar esse aparente paradoxo, pelo menos os blogs financeiros, saindo-se com  a ideia de que consumir mais não traz bem-estar necessariamente, e que pode eventualmente manter você num estado de pobreza, ou ao menos de não-liberdade.  “Não consumo em demasia, pois assim eu posso investir mais, e ser mais livre”, mas as pessoas ao defender isso não se dão conta de que não se está  explicando a aparente contradição entre aumento da possibilidade de consumo e manutenção ou às vezes decréscimo na sensação de bem-estar.


  E por que não? Porque às vezes a noção de equilíbrio não é muito bem entendida ou discutida em nossa sociedade hoje em dia.  Tente se recordar da suas aulas de ecologia na escola. Lembra-se da palavra Clímax? Vou aqui colocar uma pequena definição que está na Wikipedia:



"Este estágio é caracterizado por compreender espécies que são as melhores competidoras da comunidade local. Geralmente as espécies vegetais climáxicas (e.g. típicas do estagio Clímax) são de maior porte, além de mostrar alta eficiência entre produção e consumo de nutrientes. No estágio clímax, quando uma espécie é extinta, outra espécie típica de clímax a substitui, mantendo a ciclagem entre as comunidades de florestas e outros habites de topo na sucessão ecológica.


Comunidade clímax representa uma situação natural em que a comunidade permanece com um nível estável em freqüência de espécies (biodiversidade), onde a variabilidade dos recursos ambientais mantém-se pouco ociosa. Em clímax, a comunidade apresenta é apenas leves modificações, causadas por pequenos distúrbios, que não a descaracterizam e rapidamente normalizam sua eficiência funcional.


Ao se aproximar do clímax, uma comunidade demonstra uma tendência ao aumento na variedade de espécies, na complexidade funcional e alimentar das populações de plantas e animais."



Uma comunidade em clímax, do ponto de vista biológico, é aquela onde se atinge um grande grau de variabilidade de espécies  compatível com os recursos daquele ecossistema, onde quando há a extinção de uma espécie quase que imediatamente o seu nicho é ocupada por outra , onde a comunidade encontra-se num equilíbrio dinâmico, basicamente é quando ocorre a explosão de vida e de variedade de espécies.


Não preciso dizer que a humanidade está ajudando a produzir, do ponto de vista ecológico, um anticlímax, mas não vai ser esse o ponto pelo qual o artigo irá continuar. O que quero chamar é que a natureza chega a seu esplendor quando ela de alguma maneira consegue achar um ponto de equilíbrio entre uma gama quase inimaginável de espécies convivendo num mesmo ecossistema.  Não se chega num clímax quando há alguma espécie que simplesmente monopoliza quase todos os recursos existentes, isso se assemelha mais ao comportamento de um câncer. Não é de se estranhar, portanto,  que sistemas humanos equilibrados tendem a produzir resultados mais satisfatórios.  Não é estranho também ver pessoas infelizes com grandes desequilíbrios em suas vidas.


A questão do consumo em nossos dias, em minha opinião, está intimamente ligada com o desequilíbrio em nossas vidas. Se voltarmos ao exemplo da cabana na Sibéria, podemos concluir que muito provavelmente além do consumo, a presença de outros seres humanos acolhedores, fizeram você se sentir melhor.  Talvez naquele momento, consumo, empatia, relacionamento com outros indivíduos da mesma espécie, estivessem em equilíbrio, e isso trouxe uma sensação aguda de bem-estar. 


Talvez de volta ao seu belo apartamento e carro, outros elementos de sua vida não estejam equilibrados. Qual foi a última vez que você viu a sua mãe?  Há quanto tempo você não toca aquele violão encostado na parede, algo que te dava imenso prazer? Qual foi a última vez que alguém olhou nos seus olhos e perguntou sinceramente “como você está”? E a dor na coluna que incomoda você quando fica horas sentado? As perguntas podem continuar , mas acho que fica evidente os diversos desequilíbrios que podemos ter em nossa vida, independente da nossa capacidade de consumo.


É claro que nada do que estou falando é novo. A própria famosa pirâmide de Maslow de certa maneira trabalha esse conceito, apesar de fazer em níveis, não como uma forma de equilíbrio entre as diversas "necessidades". Entretanto, é incrível como a esmagadora maioria das pessoas em busca de um consumo maior está no processo desequilibrando ou atrofiando outras partes de suas próprias vidas. Ou pior, a humanidade na busca por um aumento maior de consumo, de coisas não necessárias para o nosso bem-estar, pode estar produzindo um imenso desequilíbrio no próprio ecossistema de que necessita para sobreviver.


Há tantas referências que esse artigo poderia citar, há tantos caminhos pelos quais poderia percorrer daqui, que isso poderia se transformar no capítulo de um livro. Porém, vou deixar o texto sucinto e me encaminhar para o seu final.


O consumo é fundamental para o bem-estar humano. O consumo está longe de ser o único ingrediente para uma vida satisfeita. Quando o consumo se torna não só o principal, mas quase que o único incentivo de um indivíduo, ou até mesmo de uma sociedade, parece-me evidente que há um grande desequilíbrio, há um anticlímax, com consequências danosas para o indivíduo e para o agrupamento humano. 


Muitos sentem isso, inclusive leitores desse espaço, que dizem dos meus textos “o que eu gosto é que você consegue perceber que há algo além da economia, finanças, etc, eu também sinto o mesmo”, é evidente que há, amigos leitores. 


Consumir é uma atividade humana. Não apenas o consumo de itens essências à nossa sobrevivência vai nos causar aumentos expressivos de bem-estar. A tecnologia humana cada vez mais complexa nos permite fazer coisas que seriam impensáveis há dezenas de anos, o que dirá há centenas de anos, como o fato de você poder ler esse texto produzido por alguém que não é famoso e não possui espaço numa mídia impressa, podemos refletir em milhares de outros exemplos. Porém, também é fato que a tecnologia de instrumento das pessoas pode passar a ser o senhor das mesmas, algo que vem ocorrendo com assustadora frequência, um tema interessante para outro artigo.


Agora, quando a busca por mais consumo se torna um fim em si mesmo (ou a busca pelo acúmulo de mais patrimônio), a razão quase que única de nossas existências, nos afastamos de uma vida equilibrada, e é quase certo que isso apenas nos trará insatisfação subjetiva imensa, e você não precisa ser um grande cientista social para perceber isso, basta olhar a sua volta.


Depois de cinco dias de viagem, chegamos a esse local remoto no meio da Mongólia. Ainda demoraria mais 10 dias até chegarmos ao extremo oeste do país. Não havia nem mesmo resquícios de qualquer estrada. Foram 12 horas passando por lugares incríveis, rios, pedras, nômades, até que paramos nesse lugar para acampar. Equilibrado me senti nesse momento, feliz e satisfeito com o macarrão simples, a tenda apertada e o visual sublime e único.





Agradeço todos os amigos que mandaram mensagens de e-mails, ou no blog mesmo, querendo participar do sorteio do livro. Pretendo fazer outros sorteios de livros, de finanças inclusive, e vou ter que bolar uma forma melhor de assim fazer. Nesse primeiro, a leitora Ana Paula levou, espero que goste dos livros do Sr. Saramago.




Um abraço a todos!