sexta-feira, 21 de abril de 2017

O GRANDE ENGODO: O INCENTIVO FINANCEIRO É O MAIS IMPORTANTE EM NOSSAS VIDAS




São cinco da manhã. João, como milhares de outros brasileiros , levanta da cama, pronto para comer um café-da-manhã sozinho, seus filhos e mulher ainda dormem, e se preparar para a longa jornada de trabalho que o aguarda.  Ele pensa consigo mesmo que gostaria de dormir mais, talvez gostasse de ir ao parque ao invés de ficar num escritório trancado enquanto o sol brilha numa temperatura agradável de uma tarde de outono, mas ele precisa trabalhar, ele precisa do dinheiro que o trabalho oferecesse. Logo, João vai trabalhar movido pelo interesse financeiro, esse é o interesse primordial, esse é o maior incentivo.  


Essa talvez seja um dos maiores equívocos de sociedades que já possuem certo nível de conforto material acima das necessidades mais básicas humanas. Está em todo lugar de maneira consciente ou não na mente da esmagadora maioria das pessoas. Não, o incentivo financeiro não é o mais importante na vida das pessoas, e essa forma distorcida de ver a realidade está ocasionando que muitas pessoas tenham vidas não satisfeitas, mesmo com graus de acumulação material cada vez maior, o que é uma contradição para muitas das retóricas e ideologias predominantes.


Já vejo críticos e cínicos, ambos com papel muito importante para o amadurecimento de idéias, pensando “pronto, mais um texto sem eira, nem beira, sem fundamento na realidade, querendo que todos voltem a viver como nossos antepassados há 1000 anos”.  Essa é a crítica padrão quando esse é o tema, seja ela colocada de forma mais direta, ou de maneira mais indireta. 


Primeiramente, como magistralmente retratado por Wood Allen numa das últimas cenas do primoroso “Meia Noite em Paris” quando o protagonista, que passa quase todo o filme achando que o passado era mais glorioso do que o presente em que ele vivia,  se dá conta que há 100 anos não havia anestesia “ e se eu tivesse que extrair um dente sem anestesia”? Logo, negar diversas evoluções humanas em diversos campos do conhecimento seria sandice. Achar que em alguma época passada as pessoas tinham uma vida melhor, em todos os aspectos, às nossas vidas atuais também é algo que não se sustenta.

Um belíssimo filme



Em segundo lugar, edifícios não se constroem sozinhos, pontes não se forma pela força do pensamento e carros não dão em árvores. Logo, é preciso trabalho, poupança e acúmulo de capital para que uma gama enorme de bens possa ser produzida.  Sendo assim, claro está que o trabalho humano é peça fundamental na construção da nossa realidade, e que o dinheiro como meio de troca é ingrediente essencial nisso tudo.


Bom, se a nossa época atual não é pior do que alguma época passada, se sem trabalho não conseguiríamos construir a realidade atual, e se o dinheiro é fundamental em tudo isso, qual é o erro de dizer que o maior incentivo de João ir trabalhar é o incentivo financeiro? A forma mais simples é dizer que esse não é o maior incentivo. A forma mais elaborada talvez seja expressar que isso ocasiona uma distorção da realidade perigosa.


Se João acorda às cinco da manhã para trabalhar, e o principal incentivo não é o financeiro, qual seria então? O AMOR. O principal incentivo da esmagadora maioria das pessoas levantar para trabalhar não é o dinheiro, mas sim o AMOR.


Amor? Como assim Amor? Endoidou Soul?”, não colegas, não fiquei maluco, aliás essa talvez seja uma das afirmações mais lúcidas desse blog. João levanta cedo para ir ao trabalho porque ele ama os seus filhos.  É o amor pelos filhos que faz com que João talvez abra mão de passear no parque, ou dormir um pouco mais, para ir ao seu trabalho.


O Amor é a força que leva as pessoas a realizar tarefas inacreditáveis, ou a aturar situações descontáveis.  Quando adolescente, minha Mãe disse que sacrificaria a vida dela para me manter vivo, se isso fosse necessário.  Ela, depois da separação do meu Pai, precisou batalhar muito para conquistar o seu espaço, e tenho absoluta certeza que ela foi movida pelo amor que sentia por mim e minhas irmãs e não pelo dinheiro.


Garanto, com uma dose alta de probabilidade, que Einstein foi movido pelo Amor que ele sentia pela sua profissão, pela tentativa de explicar o universo, e não por meros incentivos financeiros. 

“Certo, Soul, João levanta às cinco da manhã para ir trabalhar porque ele ama os seus filhos, mas ele precisa trabalhar para ter o dinheiro para que os seus filhos possam ter uma boa vida, isso não é a mesma coisa do que dizer que o incentivo de João ir trabalhar é financeiro?”, não, não é.


Há uma diferença fundamental numa sociedade onde o Amor é o incentivo primordial de uma onde o dinheiro é o incentivo fundamental.  Não é à toa que o Amor não está em nenhum lugar. Não se fala de Amor. Como Patch Adams disse na antológica entrevista concedida ao programa Roda Viva da TV Cultura em 2007 (para mim a melhor entrevista que já vi em toda a minha vida e já disse isso várias vezes nesse espaço): “ Estou cansado de não ver o Amor em nenhum lugar”.

 Não me canso de ver essa entrevista. Já vi diversas vezes. Um dos homens mais lúcidos que já ouvi falar. Porém, é tão diferente do que achamos natural, que muitas pessoas ou se sentem descontáveis ou simplesmente ridicularizam, ou simplesmente não assistem.


Sim, João precisa ir trabalhar. Sim, quase todos os leitores desse texto precisam trabalhar. Sim, carros e geladeiras não brotam do chão. Sim, muitas vezes trabalhar pode ser cansativo e exaustivo, mas necessário. Sim, a esmagadora maioria das pessoas espera ser remunerada em dinheiro em troca do seu trabalho. Não, o incentivo financeiro não é maior do que o Amor. 


A atrofia do Amor é tão grande em muitas relações, a noção de Amor, e a prima desse sentimento que é a empatia, tão negligenciada, que muitas pessoas às vezes se assustam quando se veem satisfeitas em ambientes onde não há considerações de ordem financeira.  É nisso que entra o brilhantismo de um sujeito como o Mister Money Mustache, a capacidade dele reconhecer o dinheiro como instrumental que é, nunca como a finalidade na vida das pessoas. Muitos acreditam, de forma errônea, que o blog do MMM é sobre frugalismo, sobre gastar menos dinheiro, na verdade o Blog dele trata de retirarmos o véu que nos foi (auto) imposto, e reconhecermos que o Amor é o que nos guia para frente.


                Quando se reconhece que é o amor o grande incentivador por trás das nossas condutas, e não o dinheiro, nossa relação com o que consumimos, como tratamos desconhecidos em ambientes virtuais ou não, como olhamos para outros seres humanos, muda radicalmente. Tudo fica mais fácil e prazeroso. 


                Cada vez mais pessoas reconhecem isso. Até mesmo empresas, principalmente as mais criativas, percebem que incentivos financeiros são apenas uma espécie de incentivo, e na maioria dos casos não é o mais importante.

          Os primeiros anos da série “Os Simpsons” são fenomenais. Nossa, como eu gosto de alguns episódios. Num deles, Homer decide criar coragem e se demite do seu emprego na empresa de energia nuclear. Resolve seguir o seu sonho que é trabalhar com Boliche. Tudo vai indo muito bem, até mesmo o cabelo começa a crescer, e ele parece uma criança de tão feliz. 

       Porém, uma surpresa do destino, fará a sua vida mudar. A Margie diz que está grávida pela terceira vez (da Megan, o bebê da série). Homer entra em desespero, o salário do boliche não será suficiente para bancar mais um filho. Resignado, ele volta ao emprego na empresa nuclear. O Chefão, por seu turno, como uma forma de humilhá-lo, resolve colocar uma placa na sala de controles do Homer:


"Não se esqueça: Você está aqui para sempre" - Incentivo Financeiro



                Bart, então pergunta a Homer por qual motivo não há fotos de Megan, e Homer responde “Eu as tenho onde eu mais preciso” e o programa termina assim:

"Faça Isso por ela" - AMOR


             Eu me emociono toda vez que vejo esse episódio. É uma das coisas mais bonitas que já vi em programas de televisão. Captura com perfeição o que tentei passar com esse texto. Encontre o que te emociona, o que você ama, é bem possível que você seja guiado por isso, e que sua vida dê um salto de qualidade.

         Um grande abraço!

sábado, 8 de abril de 2017

ENTENDENDO O CONFLITO SÍRIO, OU NÃO

Olá, colegas. Um leitor no meu último artigo sobre externalidades perguntou-me qual seria a minha opinião sobre o ataque americano na Síria, o conflito em si, a posição da Rússia, etc. Eu creio que atualmente muitas pessoas se sentem “capacitadas" para darem opiniões sobre muitas coisas diferentes.

 Ao contrário do que afirmam alguns pensadores, eu necessariamente não vejo nenhum problema nisso. Se alguém que nunca colocou o pé seja na Rússia, Irã, Oriente Médio e Turquia mesmo assim se sente confortável para falar sobre as complexas interações que ocorrem naquela parte do mundo, que seja. O problema, em minha opinião, surge quando se crê que a própria visão é sofisticada, ou pior quando não se admite posicionamentos em contrário. Isso é loucura, ou talvez simples, diríamos, falta de inteligência.

 Boa parte das pessoas, com a revolução tecnológica, tem acesso hoje em dia a informação quase que em tempo real sobre acontecimentos nacionais e internacionais.  Nada mais natural que se formem opiniões. Ora, eu tenho as minhas e escrevo sobre uma grande gama de assuntos, e sou sabedor que estou muito longe de ter um conhecimento aprofundado sobre a maioria deles. Porém, sempre tento expressar minhas opiniões sobre uma ótica não-excludente (de outras opiniões em sentido contrário) e sem que ela tenha um ar de autoridade suprema (no sentido de saber que posso estar simplesmente equivocado). 

  Partindo da digressão feita nos parágrafos iniciais, deixo claro que o meu conhecimento sobre tudo o que ocorre no conflito sírio é superficial, baseado em relatos de terceiros, e talvez sem os necessários filtros para definir o que possui indícios de verdade, e o que é pura fantasia. Logo, se você procura certezas, não as encontrará nesse texto, e fica ao seu critério a continuidade da leitura.

 A primeira coisa que se tem que saber sobre a guerra da Síria é que ela é complexa. Ponto. O que quero dizer com complexa? Refiro-me as diversas partes do conflito. Não é uma guerra de um exército A contra um exército B num campo de batalha bem definido. Não, colegas, está bem longe disso. É uma mistura de grupos étnicos, religiosos, potências regionais, potências internacionais e interesses dos mais variados.

  Seguem duas imagens, a primeira retirada de uma reportagem da Al Jazeera sobre um mapa da Síria e quem controla o quê e a outra da página da Wikipedia sobre as partes no conflito.

É bom salientar que a Síria é um país relativamente pequeno. Não se trata de um país de tamanho médio como o Irã ou grande como um Brasil. Logo, a presença de tantos conflitos numa região tão pequena demonstra quão confusa é a situação.


Isso parece mais um conflito mundial do que um conflito restrito a um pequeno país no Oriente Médio.




 Talvez, você leitor já soubesse das diversas partes em conflito, talvez não fizesse a menor ideia. Eu sabia que existiam vários interesses, mas fiquei muito surpreendido ao ver que há um grupo Uyghur lutando contra o governo, o Turkistan Islamic Party. 

 Para quem não sabe, e creio que a esmagadora maioria até mesmo de comentadores não devem saber, os Uyghur são um povo de língua assemelhada ao turco que aos poucos foram sendo expulsos da Mongólia por tribos mongóis e se estabeleceram prioritariamente no que hoje é a enorme província, riquíssima em recursos naturais, de Xinjiang no oeste da China há mais de mil anos. 

 É um povo que sofre uma opressão muito dura do governo Chinês. Quando estive na província em questão, um dos lugares mais bonitos do mundo, não era anormal eu passar por 5 a 6 controles militares apenas para entrar numa estação de trem. Numa viagem que fiz no meio do famoso deserto de Taklamakan (o deserto do qual Kubai Klan pergunta a Marco Polo como ele seria no primeiro episódio da série), eu desci do ônibus no mínimo umas 7 vezes para  ter o meu passaporte conferido.

  A província mais explosiva na China é Xinjiang, e quase ninguém sabe que existe. O Tibet ficou com toda a fama. Não é incomum conflitos com centenas de pessoas mortas, e se não me engano em 2008, foram milhares de mortos. Até hoje não sei porque essa província estava aberta para estrangeiros, e fico muito feliz que ela estava, pois tive grandes experiências culturais, humanas e naturais nessa região do mundo. Fomos tratados muito bem pelos Uyghur que eventualmente cruzamos pelo caminho.


Vindo da Província de Gansu (ao leste) entrei na província de Xinjiang pela capital Urumqui. Há aspectos culturais Uyghur na capital, mas houve um processo bem grande de ``hanificação``. Agora, Kasghar, e eu fiz tudo por terra parando em lugares incríveis pelo caminho, é a capital cultural dos Uyghur. É uma cidade incrível, com belezas naturais a poucas horas ainda mais incríveis. Poucas pessoas sabem, mas esta é uma das áreas mais ricas em recursos naturais da China, e a província mais rebelde de todas.


  Chamou-me a minha atenção também a existência de um “Exército de Monoteístas” que lutam junto com o governo de Assad. Ao ler um pouco mais, vi que era uma força de drusos. Não sei muito sobre os drusos, para ser sincero, nunca tive a oportunidade de conhecer um druso. O pouco que sei é que os drusos professam uma religião monoteísta (talvez daí o nome do grupo) com influências islâmicas, judaicas, cristãs e até mesmo de pensadores gregos clássicos.  Eles possuem um símbolo muito bonito de cinco cores, cada uma representando um elemento de sua crença. Lembro de ter visto um filme há muitos anos sobre um casamento druso, com o pano de fundo do conflito Israel-Palestina, e lembro que foi muito interessante.


Este filme é bem interessante, vou procurar revê-lo.

Achei tão bonita a bandeira dos Druzos que resolvi colocar aqui. Cada cor possui um significado da crença druza. O Branco, por exemplo, representa o futuro, o azul a causa precedente e o vermelho é alma universal. Essa é uma bandeira dos druzos sírios

Essa é uma bandeira dos druzos israelenses (essa eu achei particularmente bonita).



  Por que o Irã está envolvido, alguém pode perguntar. Uma resposta seria porque o presidente Assad é Xiita (num outro texto posso trazer o que causou a divisão entre sunitas e xiitas), assim como a maioria esmagadora dos muçulmanos são xiitas há muitos séculos. Como pano de fundo em diversos conflitos da região há uma disputa entre Arábia Saudita e Irã. Por qual motivo os iranianos iriam querer um estado potencialmente hostil fazendo fronteira com o seu país? Os Americanos gostariam de ter um estado hostil na sua fronteira sul? Eu creio que não. Então, o interesse iraniano parece-me claro.

 Apenas uma palavra entre o conflito da Arábia Saudita com o Irã. A percepção sobre esse conflito é uma das coisas mais sem sentido que ocorre no mundo atualmente. Eu passei um mês no Irã e posso afirmar que em muito se parece com o Brasil. Tehran mesmo é quase uma São Paulo no caos urbano, na miscelânea de gente, na classe média vibrante. Tirante alguns aspectos culturais, um visitante teria a impressão que está numa grande metrópole de um país de renda média. Mulheres médicas, estudantes mulheres, jovens vaidosas maquiadas interagindo, uma classe média forte com ideias próprias, etc.

 É de longe a coisa mais sem sentido o estereótipo do que quase todos tem sobre o Irã. Mas o Irã não tem terroristas? O Irã não está em guerra? O Irã não aplica a Sharia, como ficou a sua mulher? Foram, e são perguntas que constantemente sou perguntado. A única guerra que o Irã se envolveu recentemente foi com o Iraque, quando Saddam Hussein deliberadamente invadiu o Irã, sem qualquer tipo de provocação dos iranianos, usando armas fornecidas pelos americanos, que na época apoiavam o ditador iraquiano. 

 Tanto é assim que essa guerra é conhecida como a grande guerra de resistência, e o valor que os iranianos dão a ela simbolicamente, é o mesmo que os Russos dão a grande guerra patriótica de 1941-1945 contra os nazistas. Sim, para eles é a grande guerra patriótica, não a segunda guerra mundial. Já ouviu alguém comentando isso na televisão ou em análises sobre a segunda guerra? Eu não sabia, até presenciar que em cada cidade russa, seja de 5 mil ou 5 milhões, há um memorial com uma tocha que nunca se apaga, para nós ocidental uma eternal flame, e os números 1941-1945. Em muitos monumentos desses há a figura de uma mãe russa chorando a morte de seu filho soldado, representando o sacrifício que todas as gerações russas tiverem que fazer para combater o inimigo.

 Por seu turno, a Arábia Saudita é um regime onde as mulheres devem usar Nijab (aquela vestimenta onde apenas os olhos aparecem), a religião cristã não é permitida (no Irã, no museu da guerra que fui, há até mesmo placas homenageado um pelotão judeu de iranianos), mulheres não podem dirigir, pessoas são decapitadas em praça pública e há uma forma completamente retrógrada de governo e religião.  Parece um estado medieval. Dinheiro saudita muito provavelmente está presente em inúmeros grupos terroristas sunitas (não há grupos xiitas fazendo atentados terroristas em outros países, muito menos em países europeus, por exemplo)  

 Porém, por incrível que pareça a Arábia Saudita passa incólume a críticas ou categorizações. É incrível. Quer ofender um Iraniano? Chame-o de Árabe. E ainda há pessoas que chamam muçulmanos de árabe, não sabendo nem mesmo diferenciar uma coisa da outra. Acreditem colegas, num embate de ideias entre Irã e Arábia Saudita, o mundo está muito melhor se o Irã sair vitorioso. Aliás, talvez o Irã seja o país que o ocidente deveria apostar as suas fichas para que desse certo do ponto de vista econômico. Talvez o Irã, com sua sociedade centenas de vezes mais aberta e tolerante do que a da Arábia Saudita, possa ser um modelo para outros estados da região nas décadas que estão por vir. Talvez seja uma das formas de se combater o terrorismo de forma eficaz. Portanto, essa retórica belicosa dos EUA contra o Irã, tendo a Arábia Saudita como aliado central na região, só se explica por interesses meramente econômicos, não por uma tentativa de tornar a região mais segura e próspera.

 Falando em EUA, entra o Trump na história com o recente bombardeio como uma forma de retaliação a um suposto ataque químico do governo de Assad numa província controlada por rebeldes.  Alguns analistas falam que Trump mudou de ideia, pois ele via Assad como um aliado na luta contra o Estado Islâmico (o grupo terrorista que controla partes da Síria e do Iraque), já que esse grupo combate as forças pró-governo. Trump disse que isso mudou, pois o uso de armas químicas contra inocentes muda tudo.

 Quando houve um grande ataque químico nos subúrbios de Damascus em 2013, eu morava na Califórnia. Fui perguntando numa aula, se o governo OBAMA deveria atacar alvos sírios, pois o mesmo disse que o uso de armas químicas era uma linha que não poderia ser passada. Na época, eu disse que era uma decisão difícil, mas eu realmente acredito que a comunidade internacional, de forma conjunta e unida, deve em certos casos de atrocidades humanas dar uma resposta militar. Achava que esse deveria ser o caso. 

 Ao contrário do que falam, OBAMA não fraquejou, ele pediu autorização ao Congresso para um ataque na Síria . Não vou entrar em pormenores sobre a legalidade de atos presidenciais dos EUA, mas parece-me que faz sentido um presidente pedir autorização do congresso, pelo menos um regime democrático, para entrar em guerra direta com outro país. A não ser que haja uma ameaça real e direta aos EUA que necessite rápida e pronta resposta presidencial. 

  Obama não conseguiu a autorização do congresso, e resolveu não atacar. Sabe o que Trump disse naquela ocasião?


Não há nenhum problema em mudarmos de opinião, desde que o façamos e digamos por quais motivos estamos fazendo. Senão é pura e simples contradição.
Agora essa eu já acho difícil mudar de opinião a não ser em causa própria. 



  Eu creio que faria muito mais sentido um ataque americano de retaliação naquela época, meados de 2013, onde a guerra civil estava praticamente ainda no seu segundo ano, do que agora depois de seis anos de conflito, onde a situação mudou drasticamente desde então.

 Agora, eu creio sim que deve haver limites. O uso de armas químicas, genocídios étnicos, não devem ser tolerados no século XXI. Portanto, o ataque americano a uma base militar síria pode ter esse efeito de dissuasão.

  Ou, pode simplesmente fazer com que a guerra civil na Síria simplesmente se alongue indefinidamente. O Governo Sírio só consegue continuar na guerra por causa do apoio financeiro, logístico e militar do Irã e da Rússia. Grupos Rebeldes só conseguem se manter no conflito graças ao apoio financeiro principalmente de países árabes do golfo pérsico. Com a entrada mais decisiva da Rússia no conflito, as forças rebeldes (que entre elas há inúmeros grupos terroristas islâmicos completamente radicalizados) estavam enfraquecendo. Se houver apoio militar americano, simplesmente não haverá nenhuma solução possível. 

 A Rússia não irá se retirar, até porque eu creio que a Síria era um dos únicos lugares da região onde os russos possuem uma grande base militar (ao contrário dos Americanos que possuem diversas bases em diversos países da região), e quero crer que tanto Trump ou Putin não estão interessados num conflito armado entre os dois países.

  Porém, é evidente que a situação que era complexa, se tornou mais complexa e ainda mais volátil. O que vai sair de tudo isso é uma grande incógnita.  Há uma certeza, porém. O sofrimento humano. 

 Há guerras anônimas e desconhecidas do mundo ocorrendo na África, por exemplo. Com essas quase não há nenhuma preocupação. O sofrimento humano lá e tão horrível como o que está ocorrendo na Síria. Logo, há muito sofrimento no nosso mundo. Já houve muito sofrimento, e provavelmente ainda haverá muito mais sofrimento.

 Apesar disso, é inegável que para padrões do século XXI a guerra civil Síria atingiu padrões absurdos de brutalidade. Massacres de civis, crianças e mulheres parece ter virado a tônica. Falta de água, eletricidade, medicamentos, presos no fogo cruzado, parece evidente que a vida se tornou um inferno para quase todos na Síria.

 Quando a vida se torna um inferno num lugar, a solução mais lógica é mudar de lugar. E é isso que os Sírios fizeram e estão fazendo. A crise de imigração de sírios na Europa é apenas a ponta do iceberg. A Europa recebeu pedidos de asilo de menos de 10% do total de refugiados. Sim 1 em 10. Quando se diz que refugiados sirios estão invadindo a Europa com o intuito de destruir a civilização cristã européia, essa ideia só pode ser tida como desinformação, ignorância ou má-fé, ou uma mistura dos três. Eu penso que a esmagadora maioria é apenas levada por desinformação mesmo, e apenas uma minoria usa de má-fé. Os países que estão sendo mais afetados pela crise Síria são os  seus vizinhos, não os Estados Europeus. 


Até meados de 2015 essa era a distribuição dos refugiados sérios. A Jordânia é um país minúsculo e estável da região. O Líbano é um país para lá de complexo e conta com mais de um milhão de refugiados. Quando estava no Quirguistão conversei com um libanês especificamente sobre a situação dos refugiados e o impacto na sociedade libanesa, e ele me disse que não estava sendo fácil, pois o país ``é pequeno, e o número de refugidos é enorme``. A Turquia atualmente possui mais de dois milhões de refugiados. É imprevisível os efeitos de médio prazo que isso pode ter no país. Portanto, não acredite em propaganda, olhe os dados quado for refletir sobre a crise síria e o problema dos refugiados, seja em países europeus, seja e principalmente nos países vizinhos.


 Aí entra a Turquia. A Turquia é uma país secular. Já tive o privilégio de visitar duas vezes. Paisagens fantásticas, comida espetacular, povo acolhedor, cultura exuberante. Istambul é a única cidade do mundo que se estende por dois continentes. A Turquia é a porta de entrada (ou saída dependendo da perspectiva ) da Europa. 

 O que vocês acham, prezados leitores, que aconteceria se a Turquia  desestabilizasse?  Podem acreditar que a crise de refugiados se tornaria muito mais caótica na Europa. A segurança da Europa depende da segurança da Turquia. Quais são os efeitos que milhões de refugiados estão tendo na estabilidade da Turquia? Não muito positivos. A Turquia de um Estado com tendências democráticas, cada vez mais está se tornando um estado totalitário. Ataques terroristas que quase não existiam, a não ser alguns perpetrados pelos curdos, são frequentes. Logo, a solução para os problemas dos refugiados sírios não é apenas um problema para “evitar a islamização da europa”, ou um problema moral e ético de seres humanos, mas um problema central para a estabilidade de um dos países mais importantes do mundo que é a Turquia.

 Iria falar sobre os curdos, que é o povo sem país,  mas o texto já está entrando na sua quarta página. Não consegui conhecer o curdistão iraniano, mas tive o prazer de conhecer uma inglesa filha de curdos iraquianos, e foi bem interessante falar sobre os curdos com alguém que realmente está ligado com a cultura dos mesmos.


 É complexo, é difícil achar uma solução, e esse texto serviu apenas para fazer algumas ponderações. Espero que o ajude a refletir por si só.


 Grande abraço!

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O ASSUNTO IGNORADO POR QUASE TODOS: EXTERNALIZAÇÃO DOS CUSTOS

 Você, prezado leitor, possui um terreno onde está edificada a sua casa. O seu vizinho, com o qual até aquele momento você possui relações amistosas, decide vender água de coco. Ele monta um plano de negócios, observa os custos que irá incorrer e qual  a margem de lucro poderá obter se vender um coco por R$4,00. 

 Ele chegou nesse preço depois de observar vários lugares onde o mesmo produto é vendido a R$5,00. O seu vizinho então pensa “calculei os custos, estou empreendendo, vou ter lucro, está tudo certo”. Porém, ele percebe que deixou um custo de fora: a retirada dos cocos usados de seu terreno. Ele imagina se o negócio der certo, e vender centenas e centenas de cocos, uma hora será insuportável  a montanha de “lixo" que irá se acumular. Não há caminhão de lixo da prefeitura, mas um transporte privado de recolhimento de lixo onde se paga uma determinada taxa por uma determinada faixa de peso de lixo.

 Ele, diligentemente, entra no site da empresa privada de recolhimento de lixo, e percebe que se contratar o serviço, baseado nas suas estimativas de vendas semanais,  os custos para vender um coco subiriam para R$5,30, tornando o preço do produto quase inviável. O que fazer? Desistir do empreendimento? Não, o seu vizinho resolve tocar o negócio. A solução encontrada por ele é simplesmente jogar os cocos usados em seu terreno. Ele reflete “e o meu vizinho que se vire para tirar os cocos”. 

 “Ah, Soul, que solução esdrúxula! Nunca eu iria aceitar o meu vizinho despejando um monte de coco no meu terreno”. Não né? O exemplo é absurdo. Pois mesmo que seja absurdo, seja bem-vindo ao problema não discutido, ignorado consciente e inconscientemente pela esmagadora maioria de economistas, políticos e empreendedores: a externalização dos custos de produção.

 O que a palavra externalizar a grosso modo significa em economia? É o ato de retirar ou omitir da cadeia produtiva custos para a produção, fabricação de alguma coisa ou serviço. Pode haver efeitos positivos externalizados, e há vários exemplos, mas aqui irei me ater apenas aos efeitos negativos da externalização dos custos.

 No exemplo, hipotético espero, do seu vizinho prezado leitor, fica claro que se ele fosse internalizar todos os custos para a venda do produto almejado, o preço não seria competitivo. Pagar para uma empresa transportar os cocos já utilizados seria um custo que tornaria quase proibitivo o negócio. Quando ele decide jogar os cocos em seu terreno, ele simplesmente está retirando esses custos da cadeia produtiva, e externalizando para você. Entretanto, o custo não desapareceu. Ele simplesmente foi retirado da cadeia produtiva. O que isso ocasiona? Além da injustiça de alguém não ligado a cadeia produtiva suportar o custo, no caso você prezado leitor, isso faz com que o seu vizinho possa vender o coco a R$ 4,00, um preço que não captura todos os custos, ou seja um preço artificial, ou melhor dizendo, um preço subsidiado pelos outros.

  É incrível ver tantas pessoas defendendo a livre-iniciativa, culpando o governo por dar subsídios das mais variadas ordens, e simplesmente dando de costas, não se interessando, pelo  enorme subsídio que é a externalização de custos.  O exemplo do coco não é hipotético, ele é bem real. Quem você acha que está pagando os caminhões de lixo da prefeitura para recolher os cocos usados? Sim, você acertou, todos nós. Sendo assim, o preço dos cocos vendidos em sua cidade muito provavelmente são subsidiados por uma imensa maioria que não consome ou não tem interesse em consumir água de coco. 

  Não preciso dizer que a externalização dos custos não é a exceção, mas a norma nos nossos processos produtivos atualmente. Sabe quem também concorda com esse ponto de vista? Roger Scruton. Quem é esse Senhor? Um dos grandes intelectuais conservadores da Inglaterra. No livro “Como ser um conservador” ele faz duras observações nos capítulos “a verdade do capitalismo” e “a verdade do ambientalismo” sobre a externalização dos custos, e como isso perverte toda a lógica e funcionamento de uma sociedade livre.

 Quando esse tema é abordado, muitas vezes há respostas emocionadas, algumas até mesmo histriônicas. Quando escrevi o “conto" “Quem Quer a Verdade?”, um colega por e-mail disse que a minha escrita parecia a do Pravda. Uau. Neste texto, de maneira irônica, realçava o fato de comidas com alto teor de gordura saturada, sal e açúcar terem efeitos nocivos, principalmente em crianças.  

 E não é verdade? Quando fiquei um tempo na Califórnia, eu me assustei com a obesidade. Havia pessoas que estavam quase sem forma, era uma gordura extremamente mole. O fato interessante é que a maioria das pessoas que via nessa condição eram latinos e negros, e quase sempre quando tomava ônibus. Quando ia para bairros elegantes como “La Jolla”, não presenciava casos de obesidade mórbidos. Se era assim na Califórnia, como não deve ser no Texas? 

 Pareceu-me claro que a comida barata consumida pelas pessoas mais pobres de San Diego era apenas artificialmente barata. Os custos de saúde, mobilidade, perda de produtividade, eram simplesmente externalizados. Todos os custos ao se vender “junk food” não eram internalizados no processo de produção.  

 Assim, ficou claro para mim, que essas empresas estavam nada mais nada menos do que sendo subsidiadas com uma quantidade de dinheiro enorme por outras pessoas que não tinham qualquer relação com essas empresas.  Os lucros distribuídos para os eventuais acionistas destas empresas nada mais são do que lucros artificiais que só existem porque os custos estão sendo externalizados.

  “Como assim Soul?” Quando comecei o meu trabalho como Procurador, deparei-me com alguns casos de pessoas pedindo auxílio a União pelo fato de se sentirem incapacitadas pelo uso contínuo de cigarro. Lembro-me claramente de refletir na época algo como: por qual motivo a sociedade deve arcar pelo mau hábito dessas pessoas? De outro lado, é ético negar ajuda a uma pessoa necessitada com grave problema de saúde? Problemas que seres humanos reais tem que lidar no seu dia a dia.

  Claramente, as empresas que produzem cigarros externalizaram os custos de sustentar pessoas que tinham ficado incapacitas pelo uso dos produtos que elas fabricam. Esse custo seria agora de toda sociedade. Se assim o é, os lucros distribuídos por essas empresas só são possíveis se a sociedade como um todo subsidiá-los. 

 Ora, isso é claramente uma afronta ao livre comércio, e à liberdade de outras pessoas. Eu não quero subsidiar lucro de uma empresa de cigarro. A externalização dos custos está presente em quase tudo. Os grandes custos estão sendo todos externalizados para as gerações vindouras, num comportamento completamente antiético das gerações presentes para aqueles que não nasceram.

 Eu fiquei bastante surpreendido ao perceber que o Sr. Roger Scruton pensa exatamente a mesma coisa. Para ele um dos comportamentos mais nocivos é quando a geração atual simplesmente não leva em consideração os interesses das gerações que ainda estão por vir.

 É isso, colegas. O tema é vasto, e espero voltar ao mesmo em outros artigos.

Um bom livro, muito bem escrito. Como seria bom se "conservadores de araque" pudessem ler um livro como esse e refinar um pouco mais os seus argumentos, e refletirem que suas posições muitas vezes simplesmente são fracas e verdadeiras bobagens, e não necessariamente representam o pensamento conservador (obs: ainda acredito que o termo conservador é algo sem sentido semântico, o próprio autor do livro relata isso ao dizer que o conservador não pode ignorar as mudanças).



  Um abraço!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

PRESENCIANDO UM SKY BURIAL TIBETANO - UMA EXPERIÊNCIA MARCANTE


 Estava frio. Muito frio. Na noite anterior, nossos celulares marcavam -10 graus Celsius. Também pudera estávamos a 4.000 metros de altitude, na cidade de Litang no extremo oeste da província Chinesa de Sichuan. Era uma região tibetana, e a região autônoma do Tibet estava a poucos quilômetros dali.  

 “Que horas são?” pergunto a minha companheira, “cinco e meia” é a resposta, “você quer realmente ir?” indago, “Sim, por que não?” ela diz tentando disfarçar a vontade de continuar na cama.

  Na noite anterior, tinha perguntado ao dono da pousada, que por uma sorte incrível falava um pouco de inglês, se era verdade que um estrangeiro-turista poderia observar o ritual, e se ele realmente aconteceria amanhã de manhã. Ele tinha anotado um endereço escrito em tibetano, não sabia se no outro dia haveria, mas se ocorresse lá seria o local. Penso comigo mesmo “como as letras tibetana são bonitas, talvez é o idioma escrito mais bonito que já vi”.

  Saímos nas ruas gélidas de Litang a procura de um taxista ou alguém disposto a nos levar. Acenamos para um carro, demos o endereço escrito na língua local, perguntamos em Mandarim quanto custava,  e ele responde também em Mandarim 10 Yuan. Penso em negociar o preço, mas são menos de dois dólares e está muito frio. 

  A corrida de táxi dura alguns minutos, e por meio de vielas e monges que se encaminham para as suas preces matinais, chegamos aos limites da cidade num local com muitas bandeiras tibetana de oração. O Taxista apenas faz um sinal com a cabeça que este é o local. Saímos do carro e começamos a perambular pelo lugar.

 “Será que este é o local correto?”, indago a minha companheira, e ela responde “como é que vou saber?”. Alguns minutos se passam, e depois de andar algumas centenas de metros avistamos ao longe um grupo de homens em torno de uma fogueira. Por uns instantes ficamos apenas observando, até que um deles fez sinal para nos aproximarmos.

 Com uma certa cautela fomos caminhando em direção ao grupo, e ao chegarmos lá fomos recebidos com sorrisos e com o tradicional chá de manteiga feito de leite de Yak, uma espécie de animal que parece um boi cabeludo e mais parrudo. O gosto é salgado, ao contrário do chá mais adocicado servido em algumas outras regiões mais turísticas de Sichuan, demonstrando que é um autêntico chá tibetano.

  Nenhum falava Inglês no grupo, apenas um ou outro arriscava uma palavra. Alguns estavam trajando roupas típicas tibetanas, e era incrível perceber quão diferentes eles eram dos chineses da etnia Han, a etnia predominante em toda China. 

  Por meio de sorrisos, gestos e olhares, tentávamos nos comunicar. O gosto do chá era muito forte, mas junto com o calor da fogueira fazia o frio ficar um pouco mais suportável. Um dos tibetanos saca um faca enorme e coloca um pedaço que parece uma costela seca no chão. Ele corta então alguns pedaços e nos oferece. A Sra. Soulsurfer faz menção de não aceitar, apenas digo com os olhos “aceite”

 Coloco na boca, e um gosto de osso com gordura instantaneamente percorre o meu corpo. “Nossa, que coisa ruim!” quase exclamo em português, mas seguro o meu ímpeto. Minha companheira ao observar minha reação, sorrateiramente coloca os pedaços recebidos em sua calça sem que nenhum dos homens no grupo perceba. 

 Em que pese o gosto, retribuo com sorrisos e agradecimentos a hospitalidade e gentileza daqueles homens. Mesmo depois de uns 15-20 minutos em volta da fogueira, ainda não sabemos se alguma coisa irá ocorrer, e o que aqueles homens estão fazendo ali.

 De repente, três homens do grupo saem sem falar nada e se dirigem a um carro. Nós já estávamos fazendo menção de ir embora também, quando um dos tibetanos apenas deu a entender para que aguardássemos. Alguns instantes depois, o carro parou  uns quinhentos metros onde estávamos, e eu pela primeira vez reparei nos abutres um pouco mais longe. “Será que vai ocorrer mesmo?”.

  Foi quando vi uma forma branca, mole, parecendo um boneco ser colocada ao chão. “Será que é isto mesmo que estou pensando?”, sim, era. Nunca tinha visto um cadáver, e lá estava ele a uns 500 metros de distância. A visão daquilo me deixa um pouco inquieto. “Então é isso que nos transformamos, esse é o destino final de todos? Reis, escravos, magnatas, pobres, famosos, é assim que ficamos quando chega a nossa hora”?

 Os budistas tibetanos acreditam que tudo deve retornar a natureza e que o nosso corpo é transitório, assim como tudo na vida. Sendo assim, em muitas regiões tibetanas, não se costuma enterrar ou cremar os corpos, o que é encarado como um desperdício, mas sim oferecer os falecidos a abutres, o que é visto como um ato de generosidade. Nós ocidentais conhecemos essa prática como SKY BURIAL. Os Tibetanos conhecem como བྱ་གཏོར.  Não é esplêndida a escrita tibetana?

  Meses depois, iria conhecer algumas torres do silêncio no Irã, onde praticantes da religião zooroastra também ofereciam os corpos aos abutres. Porém, há mais de um milênio a religião zooroastra não é a dominante na Persia, e creio que desde da década de 50 os zooroastras não utilizam as torres do silêncio.

  Dois homens então começaram, pelo que pude distinguir a distância, a fazer cortes no corpo. Mais e mais abutres chegavam. Os homens então se afastam do corpo, e dezenas de abutres quase que instantaneamente se atiram em direção ao corpo.

  Em torno de um, ou talvez dois, minuto vejo apenas ossos. Não sei bem se são apenas ossos, pela distância. Eu não sei bem o que pensar. Não sei talvez se quero refletir sobre o que está acontecendo. Os acontecimentos foram tão rápidos que quase nem pude saber ao certo o que estava ocorrendo.

 Alguns tibetanos acenam para nós que podemos nos aproximar da cerimônia, eu agradeço com educação, mas digo com a cabeça que não faço questão. Olho para a minha companheira e ela também não sabe muito bem o que falar ou pensar. Apenas me diz que gostaria de ir embora, sinto que aquela experiência está sendo muito forte para ela.

 Nos despedimos do grupo, agradecendo pela hospitalidade e por permitirem que ficássemos no local. Caminhamos em direção a cidade, evitando olhar para trás. O que aconteceu está muito além da cultura onde nasci e fui criado. Eles estão certos ao fazer isso? Será que não é um conceito bonito de generosidade para com a vida na terra, de que após a morte o nosso corpo não representa mais nada? Ou será que é uma profanação do corpo humano?

 Eu, sinceramente, não sei. Aliás, quem sou eu para julgar algo desse tipo. Uma das coisas que anos viajando me ensinou é tentar ao máximo observar fatos e acontecimentos sem necessariamente ter uma máquina julgadora mental a todo instante, principalmente julgando de acordo com conceitos e preceitos nos quais fui criado, e que não necessariamente representam a verdade ou a melhor visão de mundo.

 Na verdade, o mundo é  tão diverso, que quanto mais o conhecemos, mais humildes ficamos a respeito de quanto achamos que sabemos.  É impossível apreender este conceito apenas lendo, ou vendo documentários ou opiniões de outras pessoas. 

  Um dos maiores antídotos contra o ódio e contra a ignorância é de conhecer o outro.  Com viagens longas, para locais que nem imaginamos que existam em nossas labutas diárias, a nossa visão de mundo, que para muitos é tão estática e certa, é colocada em cheque. Não se pode ignorar a realidade quando ela se apresenta de forma tão clara e nítida aos seus olhos. 

  Com um coração sem julgamentos, andamos alguns quilômetros até chegarmos em nossa pousada. O que penso de tudo que ocorreu é algo meu, assim como o são as reflexões de minha companheira a respeito. Não faço questão de julgar se é certo ou errado esta prática específica cultural tibetana, mas posso sim me sentir feliz de ter recebido a hospitalidade de outros seres humanos, e isso é motivo mais do que suficiente para que o coração se aqueça, apesar do frio intenso das ruas de Litang.

                                                                  Eu e os Tibetanos


  Grande Abraço!



segunda-feira, 27 de março de 2017

A SEGURANÇA DOS GOVERNADOS DEPENDE DA INSEGURANÇA FUTURA DOS GOVERNANTES

Olá, colegas. Antes de mais nada, nos últimos dias tenho escrito um texto por dia. Fui um pouco motivado pela leitura do livro o “Poder do Hábito”. Sempre pensei que fosse um livro mais superficial, mas fui surpreendido pela qualidade da obra.  Também resolvi experimentar outras formas de escrever. Fazendo textos mais satíricos, tentando trabalhar novas formas de construção, usando o diálogo como forma de expressão. Foi uma experimentação. Fiquei surpreendido como algumas pessoas ficam desconcertadas com novas formas de texto. Acho um processo pessoal importante a experimentação. Quem quiser olhar os textos, basta ver ao lado nos artigos escritos em março.


  A frase que dá título ao presente artigo foi dita para mim pelo meu pai há uns 15 anos. Ele por sua vez disse que a tinha lido num artigo escrito por um pensador estrangeiro. Ela resume de forma magistral como podemos pensar nossos sistemas políticos. Vou além, ela pode ser aplicada a quase tudo relacionado a relacionamentos humanos.

 Qual o sentido da frase? É simples. Se governantes são seguros em relação ao seu futuro político, há uma probabilidade muito grande para que haja abuso do poder no momento presente, com consequências deletérias para os governados no presente. Talvez fazendo uma associação como funciona, ou deveria funcionar, um mercado livre fique mais fácil a compreensão.

 Num mercado livre, a competição, ou seja a insegurança das empresas no futuro, fará com que sempre haja uma busca por uma melhora contínua nos processos. A busca pela eficiência, isso é fazer mais com menos, será quase que uma questão de sobrevivência para os agentes econômicos. Uma empresa bem consolidada no presente poderá simplesmente quebrar no futuro se houver uma acomodação grande ou uma perda de eficiência significativa. Logo, a insegurança das empresas no futuro, representa uma maior segurança para os consumidores no presente, que terão empresas sempre buscando ofertar melhores produtos e serviços.

  Por seu turno, se uma empresa possui um monopólio concedido pelo Estado , por exemplo,  é lícito presumir que essa empresa não temerá muito pelo seu futuro. Se assim o é,  muito provavelmente ela não terá muitos incentivos para ser cada vez mais eficiente no presente. Logo, a segurança da empresa, nesse contexto, em relação ao seu futuro financeiro, fará com que a vida para os consumidores do presente seja pior na forma de piores serviços e produtos prestados.

 Boa parte dos artigos do Instituto Mises Brasil falam sobre isso. É um dos conceitos fundamentais de toda teoria defendida por lá. E faz todo o sentido. Porém, a nossa vida é muito mais ampla do que relações de consumo. Eu não creio que é a melhor forma de  analisar o mundo pensar que todas as relações humanas possam ser resumidas a relações de consumo e produção. Ou, mesmo admitindo que haja relações distintas, usar a mesma forma de pensar para fenômenos completamente distintos. Apesar desse contraponto, fica evidente que faz todo o sentido de que mercados onde haja mais incerteza no futuro, as empresas tenderão a ser mais eficientes no presente, fazendo com que haja ganhos para os consumidores.

  Pense agora no seu relacionamento, caso você tenha um. Pense num casamento há 100 anos, onde o divórcio não existia, e havia uma pressão enorme sobre a mulher casada. A certeza por parte do marido sobre o futuro do casamento, com certeza levava a comportamentos que não prezavam de maneira mais intensa os interesses da esposa no presente. 

 Hoje em dia, onde as mulheres podem se divorciar quando quiserem, podem trair com muito mais facilidade sem uma pressão social enorme como existia há 100 anos, ou seja a incerteza por parte dos homens na manutenção do relacionamento no futuro, faz com que os maridos tenham que se esforçar mais para levar os interesses da esposa no presente com mais atenção. É mais ou menos o que consta no adágio popular “ Quem não dá assistência, abre para a concorrência”.

  Esse raciocínio pode ser levado para muitas esferas da nossa vida. Porém, volto aqui para a política.  Algo que acho bem interessante é observar alguns discursos de Stalin, principalmente a parte dos aplausos. O vídeo de menos de um minuto abaixo é apenas um exemplo:





  Um sujeito desse evidentemente não tinha qualquer receio sobre o seu futuro, e hoje nós sabemos o que aconteceu com os seus governados. Porém, o que Stalin fez nos causa repulsa não porque ele tenha sido o único sádico da história, isso está muito longe de ser verdade, mas porque aconteceu há pouco tempo. O meu pai era vivo quando ele deu esse discurso, e para nós que vivemos em sociedades razoavelmente estáveis e democráticas, a sombra de um Stalin é de certa forma perturbadora.

  O abuso total e completo do poder, como feito por Stalin, era a norma, não a excessão no mundo. Sempre quando leio sobre a história, nem que de forma superficial, sobre um país  que visito, fico abismado com o grau de violência e arbitrariedade que existiam há centenas de anos. Massacres de dezenas de milhares era algo comum. Governantes despóticos e poderosos podiam fazer o que bem entendessem. 

 Assistindo  ao primeiro episódio da série Marco Polo no Netflix, fiquei imaginando que o poder de um Trump ou de um Obama não é nada perto do que Kublai Khan poderia fazer com os seus súditos. Não havia qualquer incerteza no futuro para o grande Khan, o mesmo não se pode dizer dos presidentes mais recente e atual dos EUA.

  Logo, a minha, a sua, a nossa segurança, depende de sistemas políticos onde o futuro dos atuais mandatários seja incerto.  E algumas coisas contribuem para essa incerteza. A existência de pluralidade de pensamentos e de espectros políticos é uma delas. Num lugar onde não há dissidência política, de forma muito severa como na Coréia do Norte, e de forma mais branda como em Cuba (para citar dois exemplos que alguns  leitores desse espaço adoram falar), a incerteza do futuro dos poderosos é muito menor. Logo, a arbitrariedade no presente é muito maior.

 Não é à toa que esse espaço prima pela racionalidade no debate, não pela rotulação. Pessoas são diferentes. Há testes psicológicos que mostram isso. Há pessoas mais introvertidas, outras mais extrovertidas. Há pessoas com laços maiores com um determinado grupo, em que pese considerações como justiça por exemplo, outras pessoas já não agem desse modo. Há uma cacofonia de vozes e opiniões. Nós temos que saber conviver com isso, e para mim, por mais que seja um sistema com as mais diferentes falhas, a Democracia e o Estado Democrático de Direito são os melhores instrumentos para acomodarmos esse choque permanente. É um equilíbrio dinâmico ou um “equilíbrio instável”.

  O que muitos não percebem é que a sua própria segurança depende da existência de pessoas que pensem diferente. Isso é muito difícil de conceber e aceitar, eu admito. É por isso que muitas pessoas procuram o caminho mais fácil que é se fechar em suas concepções de mundo, invertendo o significado da famosa frase atribuída a Sócrates de que “Conheço uma gota, ignoro um oceano”. Quando se fecha para as diversas visões que existem sobre mundo, comportamento humano, etc, as pessoas na verdade estão implicitamente dizendo que “Ignoro uma gota, conheço o oceano”.

  O que se sabe, pelo menos pelo decurso da história, é que quase sempre houve grupos que dominaram uma grande maioria, muitas vezes de forma violenta. O poder de uns sobre muitos sempre foi a tônica. Logo, precisamos admitir que há uma tendência humana do poder ser abusado. Até pouquíssimo tempo essa era a norma, o que nós vivemos hoje em dia com poderes políticos limitados, respeito a direitos fundamentais mínimos, é uma completa exceção na história da humanidade.
  

  Isso independe do tamanho do Estado. O tamanho do Estado, ou do governo, nunca foi uma medida de maior ou menor liberdade dos súditos. Essa afirmação pode chocar ou irritar alguns ideólogos que pregam que quanto maior o Estado, menor a liberdade humana. Quanto maior a tributação, maior a “escravização” de um povo. Isso não se sustenta a uma breve análise dos números e dos próprios fatos históricos.

 Quando um blogueiro do qual eu gosto bastante repetiu essa ideia nos comentários de um outro artigo que eu tinha escrito, ele talvez possa ter ficado surpreendido que os países com menor carga tributária do Mundo são países onde a liberdade é muito restrita. Arábia Saudita, Guiné, e outros países “difíceis" estão entre os de menor carga tributária. Por outro lado, países extremamente livres, educados e saudáveis (pelas métricas do IDH) estão entre os de maiores cargas tributárias do mundo.

  Fique claro que aqui não é uma defesa de tributos ou de mais Estado, e nem o contrário de menos tributos e menos Estado, mas apenas uma constatação factual de que Estados com pouquíssimo peso no PIB podem ser totalitários, enquanto outros com grande participação, não. 

 Além do mais, na história da humanidade  , se fosse possível medir a carga tributária em períodos distantes de tempo no passado, é quase certo que há 500 anos ela seria muito menor do que é hoje. O Imposto de Renda é uma criação recente, por exemplo. Apesar disso, quem você acha que é mais livre, um cidadão inglês no ano de 2017, ou um camponês da Inglaterra no século 15?

  Logo, com Estados Grandes ou não, com ideologias das mais variadas possíveis, momentos históricos diversos, a tendência é que grupos pequenos abusem do poder. Quanto maior a segurança desses grupos sobre futuro, maior será a insegurança da maioria. Quanto menor a segurança desses grupos sobre o futuro, maior a segurança da maioria. Lembrem-se disso, prezados leitores.


  Um abraço!